Disputa com etanol eleva preço do milho e pressiona custos da avicultura em Pernambuco
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A avicultura de Pernambuco tem enfrentado aumento no custo de produção devido à alta no preço do milho vindo da região do Matopiba, que abrange áreas do Maranhão, Tocantins, Piauí e oeste da Bahia. A elevação está ligada à instalação de biorrefinarias de etanol de milho na região, que ampliaram a demanda pelo grão. Segundo o vice-presidente da Associação Avícola de Pernambuco (Avipe), Josimário Florêncio, essa nova dinâmica de mercado já impacta diretamente os produtores do estado. O milho é o principal componente da ração de aves, o que torna o setor altamente sensível às variações de preço.
De acordo com o representante da Avipe, o preço do milho produzido no Matopiba subiu cerca de 16% nos últimos dois anos. Esse aumento altera a estrutura de custos da cadeia produtiva. “A médio prazo, os custos de produção do frango e do ovo vão ficar mais caros”, afirma Josimário. Pernambuco depende fortemente dessa região para abastecer suas granjas, o que amplia os efeitos da valorização do grão.
Além do aumento da demanda, outro fator passou a influenciar o preço do milho. Segundo Josimário, o valor do produto agora também segue referências internacionais. “O preço do grão passou a ser balizado pelo preço internacional fixado pela Bolsa de Valores de Chicago, com previsão de preços até setembro”, explica. Esse movimento reduz a previsibilidade para o produtor e dificulta negociações mais vantajosas.
Mudança no mercado reduz poder de negociação dos produtores
Antes da chegada das biorrefinarias, os avicultores pernambucanos conseguiam comprar milho a preços mais baixos durante o período de colheita no Matopiba. Isso ocorria porque muitos produtores locais não tinham estrutura de armazenamento e precisavam vender rapidamente. “Era a época de barganhar um preço mais barato”, relembra Josimário Florêncio.
Com a instalação das usinas, esse cenário mudou. Atualmente, o preço do milho se mantém elevado ao longo do ano. Há dois anos, o saco de 60 quilos era vendido por cerca de R$ 75 na região. Hoje, o mesmo produto custa em torno de R$ 87, independentemente da época. Esse comportamento reduz oportunidades de compra mais econômica para os produtores.
A presença das biorrefinarias também trouxe um novo concorrente direto na aquisição do grão. “Ganhamos um concorrente na compra do milho, que consome uma quantidade grande de grãos”, resume Josimário. O polo avícola de Pernambuco consome, em média, cerca de 3 milhões de toneladas de milho por ano, o que intensifica a disputa pelo insumo.
Setor busca alternativas para reduzir dependência do milho
Diante do cenário, o setor avícola começa a avaliar alternativas para alimentação das aves. Uma das possibilidades é o uso do DDGS, subproduto gerado na produção de etanol de milho. “Uma alternativa seria utilizar uma forma nutricional das galinhas consumirem o DDGS, que já é usado na ração animal”, explica Josimário.
O avanço da produção de etanol no Matopiba está diretamente ligado à disponibilidade de matéria-prima na região. Atualmente, duas biorrefinarias estão em operação: uma em Luís Eduardo Magalhães, no oeste da Bahia, e outra em Balsas, no sul do Maranhão. As unidades têm capacidade de processar, respectivamente, 1 milhão e 2 milhões de toneladas de milho por ano.
A escolha do Matopiba para instalação dessas indústrias se deve à forte produção de grãos. Como o milho é processado próximo às áreas de cultivo, os custos logísticos são reduzidos, tornando a operação mais viável economicamente. Esse fator também contribui para manter a demanda aquecida na região.
Cenário nacional e fatores externos também pressionam preços
O Brasil ocupa posição de destaque no mercado global de milho, sendo o terceiro maior produtor e o segundo maior exportador do cereal. No entanto, o aumento do uso do grão para produção de etanol também influencia o mercado interno. Segundo o diretor técnico da Associação Brasileira dos Produtores de Milho e Sorgo (Abramilho), Daniel Rosa, cerca de 22% do milho produzido no país já é destinado ao biocombustível.
Apesar disso, o especialista ressalta que o etanol não é o único responsável pela alta dos preços. “Dizer que o etanol de milho é responsável pelo aumento do preço não é uma pura verdade”, afirma. Ele destaca que há um conjunto de fatores estruturais, incluindo o aumento dos custos de produção, que cresceram cerca de 10% na safra 2025/2026.
Daniel também aponta a necessidade de políticas públicas para equilibrar o mercado. “É preciso uma política via Conab para vender milho aos pequenos produtores do Nordeste quando o preço estiver elevado”, defende. Segundo ele, a previsibilidade na liberação dos estoques públicos ajudaria no planejamento do setor.
Além disso, as biorrefinarias costumam adquirir milho antecipadamente, o que reduz a oferta disponível no mercado spot. “Os produtores do Matopiba já sabem para quem vão vender, enquanto os pequenos produtores têm mais dificuldade para comprar antecipadamente”, explica Daniel Rosa.
Logística e custos ampliam desafios da avicultura pernambucana
A avicultura de Pernambuco já enfrenta desafios logísticos históricos para garantir o abastecimento de milho. Como o estado não possui grande produção do grão, depende de regiões distantes. Essa realidade encarece o frete e exige planejamento constante por parte dos produtores.
Em alguns momentos, o setor chegou a importar milho por ser mais vantajoso do que comprar de outras regiões do Brasil. O custo do transporte rodoviário sempre foi um fator decisivo nessa equação. Com o aumento recente dos preços, a pressão sobre os custos se intensifica ainda mais.
O cenário internacional também influencia diretamente o mercado. A redução da produção de milho nos Estados Unidos, estimada em 3% nesta safra, deve impactar a oferta global. Segundo Daniel Rosa, isso representa cerca de 30 milhões de toneladas a menos no mercado internacional, o que tende a elevar os preços.
Além disso, o aumento no custo do diesel, que subiu cerca de 30%, e a alta nos fertilizantes nitrogenados também pressionam a produção agrícola. Esses fatores devem impactar as próximas safras, refletindo diretamente no preço final do milho.
A avicultura pernambucana, concentrada principalmente no Agreste setentrional, emprega cerca de 200 mil pessoas e reúne aproximadamente 2 mil granjas e 120 empresas produtoras. Diante desse cenário, o setor segue atento às mudanças do mercado e busca alternativas para manter a competitividade e garantir a sustentabilidade da produção.
Com informações do Portal Movimento Econômico
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