Importação de trigo pelo Brasil ficará perto de recorde em 2026/27, diz Conab
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Por Roberto Samora
SÃO PAULO, 13 Ago (Reuters) - A importação brasileira de trigo no ano-safra 2026/27, iniciado neste mês, deverá atingir 7,103 milhões de toneladas, o maior volume em quase duas décadas e mais de 20% acima do ciclo anterior, diante de uma redução de mais de um quarto na produção doméstica, estimou nesta quinta-feira a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).
A projeção representa alta de quase 4% em relação à estimativa da Conab de julho. Se confirmada, será a maior importação do Brasil desde 2006/07, quando o país comprou 7,164 milhões de toneladas, estabelecendo um recorde.
O Brasil, um dos maiores importadores globais de trigo, tem na Argentina seu principal fornecedor, além de outros parceiros comerciais do Mercosul, como Paraguai e Uruguai. Mas o país também importa volumes no Hemisfério Norte, com a Rússia sendo vista como um fornecedor importante no segundo semestre, segundo um analista.
A Conab reduziu novamente nesta quinta-feira sua estimativa para a safra brasileira de trigo de 2026, agora prevista em 5,8 milhões de toneladas, refletindo uma retração de 20,4% na área plantada. Segundo a estatal, a queda decorre do menor investimento dos produtores e da perspectiva de condições climáticas mais adversas.
Produtores no Rio Grande do Sul e Paraná, líderes na produção de trigo brasileira, consideraram também eventuais efeitos de um El Niño forte no momento da decisão do plantio, pois o fenômeno climático costuma trazer mais chuvas para a região, colocando em risco a qualidade e a produtividade.
ALTERNATIVA RUSSA
As importações brasileiras de trigo na nova safra deverão focar novamente na Argentina, um dos maiores exportadores globais, especialmente com a chegada do cereal argentino do ciclo 2026/27 em dezembro, já que os moinhos se queixaram da qualidade dos grãos do ciclo anterior e importaram menos no primeiro semestre, disse Élcio Bento, analista de Safras & Mercado.
Uma alternativa para ajudar a suprir a necessidade no segundo semestre deve ser a Rússia, maior exportador do mundo do cereal, acrescentou Bento. O país já teve 170 mil toneladas desembarcadas no Brasil no primeiro semestre, o que não aconteceu em 2025, segundo dados do governo.
De janeiro a junho, as importações do Brasil somaram 2,8 milhões de toneladas, versus 3,6 milhões no mesmo período do ano passado, principalmente pela menor entrada do produto argentino, que teve queda semelhante para cerca de 2 milhões de toneladas.
"Boa parte do ano-safra 2026/27 ocorrerá em 2027, quando a expectativa para a nova safra argentina é muito boa, e de retorno do trigo aos padrões panificáveis observados antes da safra passada", disse o analista.
Ele acrescentou que há uma "preocupação" dos moinhos brasileiros no segundo semestre, uma vez que o produto da nova safra da Argentina só chega no final do ano, o que vai exigir mesclas de grãos de menor proteína do país vizinho com cereal de qualidade superior ou importações de outras origens, atualmente mais caras.
Bento disse que a Rússia é uma origem com preços um pouco mais altos -- cotados em média a R$1.591/tonelada (base CIF no Brasil) -- do que a Argentina (R$1.463/t). Mas ambos estão mais competitivos do que o produto dos EUA, que varia de R$1.809 (tipo soft) a R$2.048 (tipo hard).
"A Rússia já está entrando mesmo com os preços não tão bons, e até com as dificuldades internas do Mar Negro... tem de escoar especialmente pelo Mar Báltico", afirmou ele, em referência às dificuldades logísticas impostas pelos ataques da Ucrânia na importante rota de escoamento.
Ainda assim, o analista disse que o trigo russo tem boa competitividade especialmente no Nordeste brasileiro, onde não há restrições fitossanitárias como em São Paulo e no Sul.
(Por Roberto SamoraEdição de Pedro Fonseca)
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