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Paraná terá o maior déficit de abastecimento de trigo de sua história

Gap de 1,6 milhão de toneladas entre produção e moagem na safra 2026/27 será debatido em evento do Sinditrigo-PR, dia 11 de agosto, em Londrina
Publicado em 07/08/2026 10:56

O Paraná está prestes a enfrentar o maior déficit de abastecimento de trigo de sua história. A produção estadual projetada para a safra 2026/27 é de 2,2 milhões de toneladas, enquanto a moagem anual dos moinhos paranaenses, estimada pela Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo), é de 3,85 milhões de toneladas.

O gap de cerca de 1,6 milhão de toneladas pressiona ainda mais o setor, que compõe o maior parque moageiro do país e responde por 30% da produção nacional de farinha. Os moinhos vêm de um período de margens apertadas pela dificuldade de repassar a alta do grão para o preço da farinha. O grão subiu no primeiro semestre, mas a farinha não acompanhou a mesma intensidade.

A presidente do Sindicato da Indústria do Trigo do Paraná (Sinditrigo-PR), Paloma Venturelli, afirma que a indústria moageira opera sob pressão constante de variáveis internas e externas, mas este ciclo se desenha como particularmente desafiador. “A subida do preço do grão sem o correspondente repasse para a farinha comprime as margens e afeta diretamente a rentabilidade dos moinhos. Some-se a isso o enfraquecimento do mercado de farelo de trigo, um dos principais coprodutos da moagem. É um momento que exige do setor atenção redobrada e medidas que preservem a competitividade e a eficiência operacional, sem abrir mão da qualidade", frisa.

Para discutir esse cenário e aproveitando a proximidade do início da colheita do trigo no Estado, o Sinditrigo-PR realiza no próximo dia 11 de agosto a 9ª edição do Café Moageiro, a partir das 8 horas, na Sociedade Rural do Paraná, em Londrina. O evento reunirá representantes dos moinhos, cooperativas, entidades do setor e especialistas em uma programação dirigida.

Cenário nacional crítico

O analista da Safras & Mercado, Élcio Bento, será um dos palestrantes do evento, apresentando um diagnóstico aprofundado do momento. Segundo ele, a retração paranaense acompanha um panorama crítico nacional. A safra brasileira, que no início do ano era estimada em 7,2 milhões de toneladas, foi revisada para 5,9 milhões – uma queda provocada pela combinação de desestímulo ao plantio, seca no Cerrado e perdas já consolidadas em lavouras em Minas Gerais e Goiás.

"Como consequência direta, a projeção é que o Brasil caminha para registrar a maior importação de trigo de sua história, com volume estimado em quase 9 milhões de toneladas", pontua Bento.

No Paraná, a área plantada recuou para 740 mil hectares, retração de 13,5% em relação aos 855 mil hectares do ciclo anterior. O menor investimento tecnológico, reflexo do encarecimento de insumos importados – especialmente fertilizantes nitrogenados como a ureia – deve derrubar a produtividade média em 9,5%. O resultado é uma queda de 21% no potencial produtivo do Estado, que na safra anterior havia colhido 2,8 milhões de toneladas.

Mercado externo: oferta escassa, cara e com qualidade inferior

Se a dependência externa já é estrutural na cadeia brasileira, neste ciclo ela se torna mais aguda. A Argentina segue como a origem mais competitiva pela proximidade logística e pela inserção no Mercosul, mas carrega um problema qualitativo severo. A safra vigente, que abastece o mercado até novembro, apresenta baixo teor de proteína e de glúten úmido – resultado direto do menor uso de fertilizantes nitrogenados nas lavouras vizinhas, os mesmos que encareceram a produção no Brasil.

Na análise de Bento, a próxima safra argentina ainda é uma incógnita. Com estimativa de produção próxima a 20 milhões de toneladas, o volume seria suficiente para tranquilizar o abastecimento – desde que a qualidade acompanhe.

Buscar qualidade em outras origens eleva drasticamente os custos. O trigo norte-americano chega a custar cerca de R$ 300 a mais por tonelada em relação ao argentino, pressionado pela menor safra dos Estados Unidos desde 1970 e pelo menor saldo exportável registrado desde 1960, segundo a série histórica do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA). No Mar Negro, o recrudescimento dos conflitos entre Rússia e Ucrânia, com ataques a navios cargueiros e graneleiros no Mar de Azov e no Mar Negro, inflacionou fretes e seguros marítimos.

O Paraguai, parceiro tradicional que costuma enviar trigo ao Paraná, também projeta redução em seu saldo exportável: de 600 mil toneladas no ciclo anterior para no máximo 350 mil toneladas.

A única variável que tem amenizado parcialmente o custo das importações é o câmbio. Com um dólar próximo de R$ 5, o trigo negociado em dólares fica mais barato em reais. A escalada dos preços internacionais, no entanto, tem superado esse alívio cambial, resultando em custos de importação mais elevados nesta temporada.

El Niño e o risco sobre a qualidade

Mesmo com o clima atualmente favorável, Bento alerta que a confirmação de um El Niño de alta intensidade adiciona incertezas a um cenário já comprometido. Segundo o analista, historicamente não há registros de safras sob El Niño de forte intensidade que tenham escapado de perdas qualitativas. O fenômeno, caso se confirme, pode agravar ainda mais o quadro de oferta restrita e pressionar os preços do cereal no mercado interno.

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Fonte:
Abitrigo

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