Panamá e El Salvador decretam emergência diante dos impactos do El Niño
Panamá e El Salvador adotaram medidas de emergência diante do avanço do fenômeno El Niño, que vem alterando o regime de chuvas e elevando as temperaturas na América Central. As condições já afetam recursos hídricos, produção agropecuária e infraestrutura e devem se prolongar nos próximos meses.
O episódio de 2026-27 é apontado como potencialmente um dos mais fortes já registrados. A expectativa de intensificação do fenômeno tem levado governos da região a antecipar medidas para reduzir os impactos de períodos de seca, calor extremo e, em algumas áreas, chuvas acima da média. O Programa Mundial de Alimentos (PMA) alerta que a América Central está entre as regiões mais vulneráveis ao aumento da insegurança alimentar provocado pelo El Niño.
Panamá enfrenta seca e excesso de chuva
No Panamá, o Conselho de Gabinete declarou estado de emergência nacional na terça-feira (25). Segundo o governo, a medida permitirá acelerar procedimentos e fortalecer a capacidade de resposta das instituições diante dos impactos econômicos e ambientais associados ao fenômeno.
A situação é especialmente complexa porque os efeitos não são uniformes. Enquanto algumas regiões registram chuvas intensas e inundações, outras enfrentam redução significativa das precipitações. Entre janeiro e agosto, as inundações já atingiram mais de 15 mil pessoas no país, principalmente nas províncias de Bocas del Toro e Colón.
A ministra de Governo, Dinoska Montalvo, afirmou que o país precisa estar preparado tanto para episódios de chuva excessiva quanto para os problemas provocados pela seca.
Segundo o Instituto de Meteorologia e Hidrologia do Panamá (IMHPA), 11 bacias hidrográficas já estão em situação de estresse hídrico, com níveis baixos nos rios. O cenário preocupa porque pode comprometer a geração de energia hidrelétrica e o funcionamento de plantas de tratamento e abastecimento de água.
As previsões indicam déficit de chuvas entre outubro de 2026 e março de 2027 em diferentes regiões do país, com possibilidade de impactos que se estendam até maio. A área do chamado Arco Seco está entre as mais vulneráveis, com possíveis efeitos sobre as atividades agropecuárias.
Canal do Panamá também é afetado
A disponibilidade de água é uma preocupação adicional para o Canal do Panamá, que utiliza água doce armazenada em lagos para operar as eclusas. Com a redução das chuvas, a autoridade responsável pela via anunciou que o número de trânsitos diários será reduzido de 36 para 34 a partir do início de setembro e para 32 a partir de 15 de setembro.
A medida busca preservar os níveis dos reservatórios e garantir a continuidade das operações. O canal é uma importante rota do comércio mundial, por onde passa cerca de 5% do comércio marítimo global.
El Salvador coloca país em alerta máximo
Em El Salvador, a Proteção Civil decretou alerta vermelho em todo o território nacional devido à seca meteorológica e agrícola. A medida amplia o monitoramento das fontes de água e das áreas agrícolas e permite reforçar as ações de resposta nas regiões mais vulneráveis.
O país enfrenta um período de déficit de chuvas combinado com temperaturas elevadas. Segundo a declaração oficial, agosto acumulou 14 recordes de temperatura, enquanto períodos secos consecutivos aumentaram o estresse hídrico e a perda de umidade do solo.
Os impactos já chegaram ao campo. A falta de chuva provocou perdas em lavouras e levou o governo a anunciar assistência alimentar para famílias afetadas que não contam com sistemas de irrigação. A situação preocupa especialmente os produtores mais dependentes das chuvas para o cultivo.
A perspectiva também é de continuidade do período seco. A previsão climática oficial aponta maior probabilidade de precipitações abaixo da média entre agosto e outubro, justamente em um momento de elevada vulnerabilidade para a produção agropecuária.
Risco para a segurança alimentar
Os efeitos sobre a agricultura preocupam toda a América Central. O PMA estima que a região poderá registrar um dos maiores aumentos proporcionais da insegurança alimentar entre as áreas analisadas, em razão da combinação entre seca, temperaturas elevadas e impactos sobre as próximas safras.
A organização projeta que o El Niño de 2026-27 poderá contribuir para elevar em 49 milhões o número de pessoas em situação de insegurança alimentar aguda até o fim de 2027, considerando 45 países vulneráveis. Na América Central, o risco é especialmente elevado porque a irregularidade das chuvas pode atingir diretamente lavouras, disponibilidade de água e renda das famílias rurais.
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