Índia autoriza importação de 1 milhão de toneladas de açúcar e mercado mira impacto sobre preços

Cota sem tarifa, com entregas até outubro de 2026, reforça pressão sobre as cotações internacionais em meio a estoques baixos e preocupações com a oferta no Hemisfério Norte
Publicado em 20/08/2026 15:40

O governo da Índia autorizou oficialmente uma cota de importação de 1 milhão de toneladas de açúcar, sem cobrança de tarifas, para a safra 2025/26. As compras deverão ser entregues até 31 de outubro de 2026 e ocorrem em um momento de forte valorização dos preços domésticos e estoques apertados no país.

Segundo análise da StoneX, a decisão foi motivada principalmente pela disparada das cotações internas. Em Kolhapur, no estado de Maharashtra, os preços passaram de cerca de 4.100 rúpias por quintal para 6.400 rúpias por quintal desde o início das monções, uma alta de 56%.

Para Marcelo Di Bonifacio Filho, analista de Inteligência de Mercado da StoneX, a autorização confirma um cenário que já vinha sendo antecipado pela consultoria diante da evolução das monções e da perspectiva para os estoques indianos.

Os estoques de passagem no início da atual temporada estavam em aproximadamente 4,9 milhões de toneladas, volume equivalente a apenas dois meses de consumo. Embora a safra 2025/26 tenha apresentado aumento da oferta de açúcar, o crescimento ficou abaixo das expectativas do mercado.

Sem a necessidade de importações, a estimativa era de que a Índia chegasse ao fim de setembro de 2026 com estoques próximos de 4 milhões de toneladas. O cenário seria especialmente apertado nos meses de outubro e novembro, período de início da nova colheita e também de maior consumo interno devido aos festivais e feriados tradicionais do país.

Açúcar supera 18 cents em Nova Iorque

A confirmação da cota indiana repercutiu imediatamente na Bolsa de Nova Iorque Segundo a StoneX, as cotações do açúcar bruto chegaram temporariamente a 18 cents de dólar por libra-peso, maior nível desde abril de 2025. O contrato março de 2027 também se aproximou da marca de 19 cents.

A demanda adicional de 1 milhão de toneladas, concentrada em um período relativamente curto, aumenta a percepção de aperto no mercado internacional. Ao mesmo tempo, a origem brasileira ganha importância, já que o açúcar exportado do Brasil pode levar cerca de dois meses para chegar aos portos do oeste da Índia.

A StoneX estima que o açúcar produzido na Índia esteja atualmente próximo de US$ 615 por tonelada, líquido do GST. Já o açúcar VHP com origem em Santos poderia chegar à Índia por aproximadamente US$ 430 a US$ 450 por tonelada, também líquido do imposto.

Apesar da diferença de preços indicar competitividade para o produto brasileiro, a janela de entrega coloca pressão adicional sobre o mercado.

Segundo Di Bonifacio Filho, a tendência é que a Índia não tenha interesse em postergar as compras, principalmente porque os contratos futuros após setembro, com a rolagem para o SBH7, podem apresentar preços ainda mais elevados.

Chuvas no Hemisfério Norte aumentam preocupação

A decisão indiana acontece em um momento de maior preocupação com a oferta global de açúcar. A Índia enfrenta monções com volume de chuvas mais de 10% abaixo da média, enquanto a Tailândia também apresenta perspectivas de redução da produção na safra 2026/27.

Na União Europeia, a situação é ainda mais delicada. A região enfrenta uma das estiagens mais severas de sua história, acompanhada por temperaturas elevadas. Para a StoneX, esse cenário tende a aumentar a necessidade de importação de açúcar pelo bloco, principalmente nos três primeiros trimestres do próximo ano.

Esse movimento é considerado especialmente relevante para o mercado de açúcar refinado e, consequentemente, para o diferencial entre os contratos de Londres e Nova York, conhecido como LDN-NY. Um diferencial mais elevado pode antecipar uma maior demanda física por açúcar bruto.

Brasil pode limitar impacto da nova demanda

Apesar da reação positiva das cotações, a StoneX avalia que a disponibilidade de açúcar no curto prazo, especialmente no Brasil, pode limitar o impacto da nova demanda indiana sobre o mercado físico.

Os preços atuais do contrato nº 11 em Nova York oferecem incentivo para que as usinas do Centro-Sul aumentem a participação do açúcar no mix de produção entre agosto e outubro. Ao mesmo tempo, a demanda por importações de maneira geral continua enfraquecida.

“Há oferta disponível, especialmente do Brasil”, avalia o analista.

A própria reação do mercado nesta quinta-feira (20) mostrou essa dinâmica. As cotações chegaram a tocar 18 cents por libra-peso após o anúncio da cota indiana, mas recuaram rapidamente para a faixa de 17,60 a 17,70 cents por libra-peso.

Nos contratos mais longos, a reação foi mais limitada. As telas de maio de 2027 em diante operavam próximas da estabilidade ou em queda, indicando, na avaliação da StoneX, que parte do movimento recente de alta também está relacionada à busca das usinas por melhores margens para a safra atual e para as próximas.

Fundos aumentam posição vendida

Outro ponto de atenção está no posicionamento dos fundos. Dados da CFTC mostram que, até 11 de agosto, os fundos ampliaram em mais de 115 mil lotes a posição líquida vendida na Bolsa de Nova Iorque A StoneX estima que, até 18 de agosto, essa posição tenha recuado para uma faixa entre 75 mil e 85 mil lotes vendidos.

Para a consultoria, a entrada de uma demanda potencial de 1 milhão de toneladas pode provocar uma mudança importante nesse equilíbrio, principalmente caso os fundos passem a recompor posições compradas.

Nesse cenário, a participação especulativa pode ampliar a volatilidade e levar as cotações a novas altas mesmo diante da disponibilidade de açúcar no Brasil.

“O rally do #11 ainda conta com questões em aberto”, destaca Di Bonifacio Filho, citando a definição das safras da Tailândia e da União Europeia e o comportamento da produção no Centro-Sul brasileiro.

No Brasil, o clima também será determinante. Caso as chuvas retornem a níveis acima da média entre setembro e novembro, período final da colheita da safra 2026/27, as usinas podem enfrentar dificuldades para retirar toda a cana disponível dos canaviais e processar o caldo, reduzindo a oferta efetiva de açúcar.

Pressão pode aumentar nos contratos de outubro e março

Para a StoneX, um dos principais pontos de atenção agora está nos contratos de outubro de 2026 e março de 2027.

O posicionamento dos agentes comerciais indica forte presença vendedora nessas primeiras telas. Ao mesmo tempo, uma eventual retomada mais firme das compras pelos fundos poderia aumentar a pressão sobre os vendedores.

A questão, portanto, passa a ser quem estará disposto a assumir o outro lado das operações caso o movimento comprador dos fundos ganhe força nos próximos dias e meses.

A autorização da Índia adiciona uma demanda concreta ao mercado internacional, mas o impacto final sobre os preços dependerá do equilíbrio entre essa necessidade, a disponibilidade brasileira e a evolução das safras e condições climáticas no Hemisfério Norte.
 

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Por:
Andréia Marques com informações de StoneX
Fonte:
Notícias Agrícolas

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