Açúcar ganha força com clima, oferta global e mudança de estratégia na Índia

Efeitos do El Niño sobre grandes produtores, menor oferta esperada e maior participação dos fundos ajudam a explicar a alta recente; usinas brasileiras também encontram cenário mais favorável para o açúcar
Publicado em 20/08/2026 14:48

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O mercado internacional de açúcar ganhou força nas últimas semanas, em um movimento que vai além da oscilação das cotações nas bolsas.

A preocupação com a oferta global diante dos impactos climáticos em importantes regiões produtoras, somada à atuação de fundos especulativos e a mudanças na estratégia da Índia para o etanol, tem dado sustentação aos preços.

Em Nova York, o açúcar já alcançou a faixa de 17,50 cents por libra-peso, com o contrato outubro chegando a 17,53 cents e o março de 2027 a 18,54 cents por libra-peso. Em Londres, o açúcar branco também avançou para níveis elevados, com o contrato outubro atingindo US$ 540,20 por tonelada e o dezembro chegando a US$ 535,40 por tonelada. O movimento reforça a recuperação do mercado nas últimas semanas, após um longo período de preços pressionados. 

Para Maurício Muruci, analista da Safras & Mercado, a valorização ganhou força depois de um longo período de preços considerados pouco remuneradores para as usinas.

“A gente vê aí um mercado gerando em torno de 17, 18, ou seja, a gente já começa a ver uma precificação interessante.”

Segundo o analista, porém, é preciso olhar para os fundamentos que estão por trás dessa mudança. Entre eles está o clima, especialmente os efeitos esperados do El Niño sobre os principais produtores mundiais.

El Niño coloca oferta global no radar

Muruci destaca que a Safras & Mercado já havia identificado, em levantamento realizado em junho, uma possível frustração na produção de açúcar entre os principais países e regiões formadores dos preços internacionais.

A estimativa apontava para uma redução superior a 10 milhões de toneladas na oferta da safra 2026/27, considerando Brasil, Índia, Tailândia, China e União Europeia.

Na avaliação do analista, os números podem estar até subestimados diante da evolução das condições climáticas.

“Temos aí 10 milhões de toneladas de frustração produtiva para essa futura somente em função do El Niño.”

A União Europeia é um dos exemplos citados por Muruci. No fim de julho, a Comissão Europeia reduziu em 2,6 milhões de toneladas a estimativa de produção de açúcar do bloco na temporada 2026/27, uma revisão mais severa do que a redução de 1 milhão de toneladas projetada anteriormente pela Safras & Mercado.

Além da Europa, o cenário climático preocupa em países asiáticos. Chuvas abaixo da média na Índia e na Tailândia e temperaturas elevadas na Europa aumentam as incertezas sobre a disponibilidade de açúcar na próxima temporada.

Fundos começam a apostar na alta

De acordo com Muruci, os fundos especulativos passaram a aumentar as apostas na valorização do açúcar.

“Esse pessoal já começou a apostar em altas no açúcar. [...] Ele demorou, mas eles acordaram de que o açúcar será fortemente impactado de forma negativa na sua oferta.”

Esse movimento ajuda a explicar por que a valorização ganhou velocidade nas últimas semanas, mesmo com os sinais de redução da oferta já aparecendo anteriormente.

Índia pode mudar estratégia para o etanol

Outro ponto importante para o mercado é a estratégia da Índia. O país vinha direcionando parte da produção para o etanol, mas a perspectiva de uma safra menor pode levar a uma redução desse volume.

A expectativa inicial era de que cerca de 3,4 milhões de toneladas de açúcar fossem destinadas à produção de etanol na nova temporada.

Segundo Muruci, esse volume pode cair para aproximadamente 2,4 milhões de toneladas.
A mudança, entretanto, não significa necessariamente uma grande reversão da oferta de açúcar, já que a maior parte do etanol produzido na Índia não depende da cana.

“Apenas 20% do etanol produzido na Índia [...] vem do açúcar. Os demais 80% vêm de grãos.”
Ainda assim, a produção indiana de açúcar deve ficar pressionada pelo clima. Muruci estima uma produção entre 28 milhões e 30 milhões de toneladas, diante de uma demanda interna que permanece elevada, entre 29 milhões e 30 milhões de toneladas.

Brasil: usinas encontram cenário mais favorável

No Centro-Sul brasileiro, a redução no ritmo de moagem também entrou no radar do mercado. A combinação entre uma safra que começa a perder força a partir de agosto e preços internacionais mais atrativos muda a relação de rentabilidade entre açúcar e etanol.

As usinas estão priorizando o açúcar porque, neste momento, o produto oferece uma rentabilidade superior à do etanol. 

“O prêmio de arbitragem do açúcar está muito elevado, está valendo muito a pena fazer açúcar.”

As unidades que permanecem mais direcionadas ao etanol, por sua vez, estão priorizando a formação de estoques para uma entressafra que tende a ser mais longa. As exportações brasileiras de etanol também apresentam alguma recuperação, enquanto a demanda interna reage aos níveis de competitividade.

O resultado é um ambiente mais favorável para os dois produtos, embora o açúcar continue apresentando vantagem na arbitragem.

Segundo o analista, os fundamentos atuais apontam para preços firmes tanto para o etanol quanto para o açúcar, com o mercado internacional incorporando gradualmente os riscos de uma oferta global menor.
 

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Por:
Andréia Marques
Fonte:
Notícias Agrícolas

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