Tarifa de 25% dos EUA entra em vigor e amplia tensão comercial; etanol e açúcar brasileiros monitoram impactos
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A nova tarifa adicional de 25% imposta pelos Estados Unidos sobre uma série de produtos brasileiros entrou em vigor nesta quarta-feira (22), ampliando as tensões comerciais entre os dois países. A medida afeta setores estratégicos para o agronegócio, como máquinas agrícolas, produtos de madeira, etanol e açúcar orgânico, além de calçados e outros bens industrializados.
A tarifa é a primeira implementada dentro da nova estratégia comercial do governo norte-americano, que utiliza a Lei de Comércio de 1974 para investigar práticas consideradas desleais. No caso do etanol, produtores americanos utilizaram como argumento a tarifa de 18% aplicada pelo Brasil ao combustível importado.
Além da nova taxação, o mercado de biocombustíveis também acompanha a tramitação da ampliação do E15 durante todo o ano nos Estados Unidos. Segundo estimativas da StoneX, a medida poderá reduzir em cerca de 76% o potencial exportável americano de etanol até 2027, fortalecendo ainda mais a política de proteção à indústria doméstica de etanol de milho.
UNICA rebate justificativa americana
A União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (UNICA) contestou a justificativa utilizada pelo governo americano para impor a tarifa ao etanol brasileiro. Segundo a entidade, a alíquota de 18% aplicada pelo Brasil ao etanol importado não é discriminatória, segue as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC) e integra a Tarifa Externa Comum (TEC) do Mercosul.
A entidade também destaca a assimetria existente na relação comercial entre os dois países. Enquanto o etanol americano tem acesso ao mercado brasileiro, o açúcar brasileiro continua enfrentando tarifas elevadas e cotas para entrar nos Estados Unidos.
O CEO da SCA Brasil, Martinho Ono, afirma que a decisão já era esperada e faz parte de uma discussão que se arrasta durante as negociações comerciais entre os dois países.
"O Brasil não impõe sozinho essa tarifa de 18%; ela faz parte da política do Mercosul e é resultado de negociações realizadas no passado, que envolveram também o acesso do açúcar brasileiro ao mercado americano", explicou.
Na avaliação de Ono, o mercado americano perdeu importância para as exportações brasileiras de etanol nos últimos anos, reduzindo os impactos diretos da medida. Ainda assim, ele defende que o Brasil mantenha a atual política tarifária enquanto persistirem as restrições ao açúcar brasileiro.
A União Nacional do Etanol de Milho (UNEM) também criticou a decisão americana, classificando a medida como um retrocesso na cooperação entre os dois maiores produtores mundiais de biocombustíveis. Para a entidade, embora os efeitos imediatos sobre as exportações sejam limitados, a medida aumenta a insegurança regulatória e pode gerar reflexos negativos sobre outros parceiros comerciais.
StoneX vê impactos limitados no curto prazo
Na avaliação da StoneX, os efeitos imediatos sobre as exportações brasileiras de etanol tendem a ser reduzidos. Isso porque o fluxo de vendas para os Estados Unidos já vinha diminuindo desde 2024 e o mercado americano apresenta atualmente elevados níveis de estoques.
Segundo a consultoria, os estoques de etanol nos Estados Unidos chegaram a cerca de 24 milhões de barris em julho, volume aproximadamente 6,3% superior à média dos últimos cinco anos, reduzindo significativamente a necessidade de importações.
"De imediato, os impactos sobre as exportações de etanol aos EUA são limitados, já que o volume vinha em queda desde 2024. A necessidade de importações americanas está muito baixa, tornando pouco provável uma reversão da balança comercial nos próximos meses", destaca a StoneX.
Comércio bilateral mudou de direção
Os dados levantados pela consultoria mostram que o comércio bilateral de etanol sofreu uma inversão significativa nos últimos dois anos.
Após registrar superávit para o Brasil em 2024, o saldo comercial diminuiu em 2025 e tornou-se negativo em 2026. No primeiro semestre deste ano, o Brasil importou 250,8 mil metros cúbicos de etanol americano, enquanto exportou apenas 66,4 mil metros cúbicos aos Estados Unidos, configurando um déficit de aproximadamente 184,4 mil metros cúbicos.
Segundo a StoneX, essa mudança ocorreu principalmente após o aumento da mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina brasileira, que elevou o consumo interno e reduziu os estoques disponíveis no início do ano.
Ao mesmo tempo, a safra recorde de milho dos Estados Unidos reduziu os custos de produção do etanol de milho, tornando o produto americano mais competitivo. Os preços internacionais ficaram mais atrativos principalmente para o abastecimento do Norte e Nordeste brasileiros durante o período de entressafra.
Com o início da moagem da cana-de-açúcar no Centro-Sul, a janela de arbitragem perdeu força, reduzindo as importações a partir de março.
Brasil terá de ampliar mercados
Para a StoneX, o principal desafio para o setor sucroenergético será ampliar os destinos das exportações brasileiras de etanol.
A consultoria ressalta que a produção nacional continua em níveis recordes, enquanto a demanda doméstica, especialmente pelo etanol hidratado, cresce em ritmo mais lento.
"No médio prazo, o Brasil precisará encontrar novos destinos para exportação de etanol, visto que a produção segue crescendo em níveis recordes e a demanda interna não vem respondendo na mesma medida", afirma a consultoria.
Entre os mercados com potencial de expansão estão Coreia do Sul, Filipinas e Países Baixos. Outro país apontado como oportunidade é o Vietnã, que vem ampliando a mistura obrigatória de etanol nos combustíveis e deverá aumentar suas importações nos próximos anos.
Açúcar também pode sentir os efeitos
Embora represente uma parcela pequena das exportações brasileiras de açúcar, os Estados Unidos mantêm uma cota de importação de açúcar bruto destinada ao Brasil. Para 2026, esse volume é de aproximadamente 156 mil toneladas.
Segundo a StoneX, a nova tarifa tende a encarecer o produto brasileiro para os compradores americanos, podendo reduzir o aproveitamento dessa cota.
No curto prazo, isso pode aumentar a disponibilidade de açúcar brasileiro no mercado internacional, justamente em um momento de oferta elevada, fator considerado baixista para as cotações globais.
Por outro lado, a consultoria destaca que, caso a produção americana de açúcar de beterraba seja prejudicada pelas altas temperaturas registradas durante o verão no Hemisfério Norte, os Estados Unidos poderão ampliar novamente sua necessidade de importações na safra 2026/27.
Nesse cenário, usinas brasileiras, principalmente do Nordeste, tradicional fornecedoras de açúcar para o mercado americano, poderão buscar novos destinos para seus embarques enquanto aguardam uma possível retomada da demanda.
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