Clima e etanol reforçam incertezas sobre a oferta global de açúcar
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As preocupações com a oferta global de açúcar seguem dominando as análises do mercado internacional. Embora as cotações tenham oscilado nos últimos dias com recuo em Nova Iorque na quinta-feira (2) após a queda do petróleo e avanço em Londres nesta sexta-feira (3), especialistas avaliam que os fundamentos permanecem favoráveis para um cenário de preços sustentados no médio prazo. O foco dos investidores está concentrado nas condições climáticas da Ásia, na evolução da safra brasileira e nas decisões das usinas sobre o mix entre açúcar e etanol.
A maior preocupação continua sendo o comportamento das monções na Índia e na Tailândia, dois dos principais produtores mundiais da commodity. A escassez de chuvas durante o início do período chuvoso aumenta o risco de perdas na produtividade da cana e reduz as expectativas de oferta para a próxima safra.
Para o diretor-presidente da G7 Agro Consultoria, João Baggio, o mercado continuará reagindo à medida que novos dados climáticos forem divulgados.
"O mercado vai continuar precificando à medida que forem surgindo os dados das monções. Se se confirmar que as chuvas serão fracas na Índia e na Tailândia, com certeza os preços vão subir mais. Agora é ficar de olho no clima", afirma.
Além da questão climática, Baggio chama atenção para uma mudança estrutural na Índia. Segundo ele, o país tem ampliado os investimentos na produção de etanol como estratégia para reduzir sua dependência de combustíveis fósseis, o que pode diminuir ainda mais a disponibilidade de açúcar no mercado internacional.
"A Índia entrou forte na produção de etanol. Se esse movimento continuar, ela pode deixar de ser exportadora e se tornar importadora de açúcar. Nesse cenário, o Brasil tende a ocupar esse espaço."
Outro fator observado pelo mercado é o comportamento da indústria brasileira. Diferentemente da safra passada, quando a produção priorizou o açúcar, neste ciclo as usinas têm destinado uma parcela maior da cana para o etanol, reduzindo o volume disponível para exportação.
"Hoje a safra está mais alcooleira. Isso representa de 2 a 3 milhões de toneladas a menos de açúcar no mercado para exportação", destaca Baggio.
Segundo o consultor, a demanda pelo biocombustível continua aquecida no mercado interno, impulsionada pela competitividade frente à gasolina e pelas políticas de incentivo ao consumo de etanol. Esse cenário pode fazer com que muitas usinas mantenham a estratégia de privilegiar o combustível renovável, mesmo diante da recuperação das cotações do açúcar.
A perspectiva de menor oferta também é compartilhada por Marcelo Bonifácio Filho, analista de inteligência de mercado da StoneX. Para ele, os problemas climáticos já começam a ganhar dimensão suficiente para alterar as expectativas globais de produção.
"A Índia registrou um dos piores inícios de temporada de monções da série histórica, com chuvas cerca de 40% abaixo da média até o fim de junho. Isso pode comprometer tanto a produtividade da safra atual quanto o desenvolvimento da próxima temporada", explica.
Na avaliação do analista, a Tailândia também inspira preocupação por enfrentar precipitações abaixo da média e redução da área cultivada. Ao mesmo tempo, a União Europeia passa por uma intensa onda de calor justamente em um período decisivo para o desenvolvimento da beterraba, matéria-prima utilizada na fabricação de açúcar.
"A questão da Europa surgiu recentemente como mais um fator de preocupação. Somando Índia, Tailândia e União Europeia, temos argumentos bastante relevantes para uma oferta global mais apertada."
Embora o cenário internacional seja predominantemente altista, Bonifácio pondera que o Brasil ainda exerce um papel importante como fator de equilíbrio. A produção do Centro-Sul continua elevada e eventuais mudanças no mix açucareiro podem ampliar a oferta nos próximos meses.
"O mercado também vai acompanhar os próximos relatórios da UNICA para entender como está evoluindo o mix de produção. Se houver um direcionamento maior para açúcar, isso pode amenizar parte das preocupações com a oferta", afirma.
Os números mais recentes reforçam essa dinâmica. De acordo com levantamento da S&P Global Energy, a produção de açúcar no Centro-Sul na primeira quinzena de junho deve ter somado 2,21 milhões de toneladas, volume 9,5% inferior ao registrado no mesmo período do ano passado. Em contrapartida, a produção de etanol deve crescer cerca de 18%, refletindo justamente a maior destinação da cana ao biocombustível.
Na avaliação dos especialistas, o comportamento do clima nas próximas semanas será decisivo para definir a direção do mercado. Caso o déficit de chuvas persista na Índia e na Tailândia e as perdas na Europa se confirmem, o cenário de restrição da oferta global tende a se consolidar, mantendo o açúcar sustentado mesmo diante das oscilações pontuais observadas nas bolsas.
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