CNI mantém em 2% a projeção de alta do PIB de 2026

Setores menos sensíveis aos juros elevados devem impulsionar crescimento da economia, com destaque para a indústria extrativa
Publicado em 22/07/2026 09:24

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) manteve em 2% a projeção de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) do país para 2026. De acordo com o Informe Conjuntural do 2º Trimestre, divulgado nesta quarta-feira (22), a resiliência do setor de serviços e perspectivas mais positivas para a agropecuária e a indústria — em especial, a extrativa — devem influenciar positivamente a atividade econômica. Por outro lado, juros altos, custos elevados e o aumento das importações devem prejudicar o setor produtivo e limitar o desempenho da economia.

“O cenário econômico de 2026 é marcado pelo crescimento moderado, sustentado principalmente pelos setores ligados às commodities e por estímulos à demanda. Em contrapartida, a combinação entre política monetária restritiva, condições financeiras adversas, inflação elevada e persistência das fragilidades fiscais continua limitando uma recuperação mais forte da economia” aponta Mario Sergio Telles, diretor de Economia da CNI.

>> Confira a análise sobre a pesquisa na sonora de Mario Sergio Telles, diretor de Economia da CNI

Perspectivas para extrativa, transformação e construção sobem

A indústria teve a projeção de crescimento revista de 1,6% para 2,1%. A perspectiva mais otimista se deve, sobretudo, à indústria extrativa. Menos sensível aos juros altos e impulsionada pelo aumento da produção de petróleo, deve avançar 9,1% em 2026 e não mais 7,8%, conforme a previsão anterior.

O desempenho da indústria de transformação, por sua vez, deve ser comprometido por uma combinação de três fatores: entrada expressiva de produtos importados, juros elevados e custos crescentes em decorrência da guerra no Oriente Médio. Ainda assim, a CNI aumentou de 0,3% para 0,6% a expectativa de alta do setor.

“A revisão da expectativa de crescimento da indústria de transformação se deve ao desempenho de três segmentos especificamente: derivados de petróleo, produtos farmoquímicos e farmacêuticos e automóveis. Contudo, é importante destacar que a maior parte do setor continua enfrentando dificuldades, uma vez que apenas sete dos 24 segmentos estão crescendo”, pondera Mario Sergio.

Embora também sofra com os efeitos da política monetária, a indústria da construção deve ser impulsionada por iniciativas do governo, como a ampliação do Sistema Financeiro da Habitação, mudanças nas regras do crédito imobiliário, programa Reforma Casa Brasil e continuidade dos investimentos em infraestrutura. Por isso, a CNI reviu a projeção de crescimento do setor de 1,3% para 1,5%.

Projeção para o agro sobe pela segunda vez consecutiva

A expectativa de outra safra recorde — puxada pela soja — e o avanço da produção animal devem contribuir para o crescimento da agropecuária, de acordo com a CNI. Apesar do encarecimento de insumos por conta da guerra no Oriente Médio, o setor tende a crescer 1,8% em 2026. A expectativa anterior era de alta de 1,1%. Vale lembrar que, no fim do ano passado, a perspectiva para o setor era de estagnação.

O setor de serviços foi o único a ter a estimativa de crescimento diminuída, de 2,1% para 1,9%. Ainda que o segmento de informação e comunicação, as vendas do varejo e o mercado de trabalho continuem sustentando o setor, bem como medidas de estímulo ao consumo — entre elas a ampliação da faixa de isenção do imposto de renda — alguns fatores limitam o desempenho dos serviços. Destacam-se o aumento do endividamento e da inadimplência das famílias e a manutenção dos juros altos, que desestimulam a demanda.

Inflação em alta e piora do quadro fiscal devem frear corte dos juros

A CNI aumentou de 4,4% para 5% a projeção de avanço do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) para 2026. A revisão se explica, sobretudo, pela elevação dos preços dos alimentos e dos combustíveis, além da persistência da inflação de serviços.

Em relação às contas públicas, a CNI prevê aumento real de 5,8% da receita líquida federal. O crescimento da arrecadação, porém, será acompanhado pelo avanço dos gastos. A expectativa é que as despesas federais subam 4,5% acima da inflação. Nesse cenário, o déficit do governo deve alcançar cerca de R$ 55,3 bilhões — patamar semelhante ao registrado em 2025. Com as contas fechando no vermelho, a dívida pública deve fechar 2026 em 82% do PIB, o que representaria um aumento de 10,3 pontos percentuais do endividamento em dez anos.

Em meio à deterioração do quadro fiscal e do avanço da inflação, a CNI acredita que o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central vai realizar somente dois cortes de 0,25 ponto percentual na taxa básica de juros, a Selic, levando-a de 14,25% para 13,75%. A projeção do Informe Conjuntural do 1º Trimestre para a Selic ao fim de 2026 era de uma taxa de 12,75%.

“Vale destacar que a taxa de juros neutra, que é aquela que não retrai nem incentiva o crescimento econômico, está em 5%. Se as nossas projeções se confirmarem, os juros reais fechariam 2026 em torno de 9,2%, o que representa uma política monetária extremamente contracionista”, aponta Mario Sergio.

Cenário externo traz riscos e importações de bens de consumo seguem em alta

O documento ressalta que, no cenário externo, a guerra no Oriente Médio segue como o principal fator de risco para a economia brasileira. Por causa do conflito, os custos do setor produtivo com combustíveis, energia e fertilizantes dispararam no primeiro semestre, mas o movimento pode perder força ao longo do ano devido ao aumento esperado para a oferta de petróleo e à menor demanda chinesa.

Outro componente que preocupa o setor produtivo é o forte aumento das importações de bens de consumo. A entrada desses produtos cresceu 16% no primeiro semestre, avanço que ocorre em meio à desaceleração da indústria e da demanda por produtos industriais. As importações, de forma geral, devem totalizar US$ 306 bilhões, segundo a CNI, 5,2% a mais do que em 2025.

No que diz respeito às exportações, o país deve se beneficiar de preços mais altos das commodities, tanto minerais, como o petróleo, quanto agrícolas, como a soja. As vendas para outros países devem somar US$ 383,9 bilhões, alta de 9,5% em relação ao ano passado, estima o documento. Vale destacar, porém, que o quadro pode mudar significativamente com o aumento das tarifas norte-americanas sobre produtos brasileiros.

Nesse cenário, espera-se que a balança comercial registre superávit de US$ 77,9 bilhões, o que representaria alta de 30,4% na comparação com 2025.

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Fonte:
CNI

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