Dólar desaba 3,3% e tem maior queda em dois anos e meio com realização de lucros

SÃO PAULO (Reuters) - Um forte movimento de realização de lucros ditado pelo exterior levou o dólar à maior queda em dois anos e meio nesta terça-feira, com a moeda devolvendo em apenas um dia mais da metade do ganho acumulado nas primeiras sessões de 2021 e também repercutindo falas de um diretor do Banco Central.
O dólar à vista caiu 3,32%, a 5,3208 reais na venda, na maior baixa percentual diária desde 8 de junho de 2018 (-5,59%). Ao longo da jornada, a cotação oscilou entre 5,4948 reais (-0,15%) e 5,3192 reais (-3,35%).
O real liderou, com folga, os ganhos entre as principais moedas globais, depois de encabeçar as perdas nas últimas sessões. A moeda brasileira era seguida no dia por rublo russo (+1,9%), rand sul-africano (+1,8%), peso mexicano (+1,3%) e dólar australiano (+1%) --divisas de risco e que, portanto, se beneficiam de expectativas de crescimento econômico.
Luciano Rostagno, estrategista-chefe do banco Mizuho, considerou que a maior parte da baixa do dólar nesta sessão veio do exterior, onde a moeda caía de forma generalizada depois de um rali nos primeiros dias do ano. "Existe a perspectiva de mais estímulo global e isso é positivo para mercados e ativos emergentes, como o real", disse.
Na véspera, o dólar havia saltado 1,60%, a 5,5033 reais na venda, maior nível desde 5 de novembro (5,5455 reais). A moeda vinha de alta de 6,01% no ano até segunda-feira, valorização reduzida a 2,49% aos preços desta terça.
O tombo do dólar se deu ainda em meio a declarações do diretor de Política Monetária do Banco Central, Bruno Serra.
Em live, o diretor afirmou que os juros de 2% não são para situações normais no Brasil e que é natural imaginar que o "estímulo extraordinário" que o BC está concedendo à economia via política monetária será retirado de cena em algum momento.
Os comentários vieram no dia em que o IBGE divulgou que a inflação medida pelo IPCA teve em 2020 a maior taxa em quatro anos, ficando acima da meta de 4%.
Uma das discussões no mercado é se o Banco Central poderia ser forçado a antecipar a normalização da política monetária, cujo início está previsto atualmente para agosto, com base em estimativas compiladas pela pesquisa Focus.
O mercado tem avaliado que parte da pressão sobre o real desde o ano passado decorre do baixo nível de juros, com a Selic na mínima histórica de 2% deixando a moeda brasileira como opção barata para hedge ou mesmo como fonte de financiamento.
O próprio diretor Bruno Serra colocou a redução do diferencial de taxas como fator a explicar o patamar atual do dólar, além de incerteza fiscal, mudança nas regras de tributação de hedge e redução da dívida em dólar por parte de algumas empresas.
"Considero que o BC deveria iniciar o processo de normalização monetária em março ou maio, o que deve aliviar, caso não ocorram mais surpresas fiscais negativas, as pressões no câmbio, na inclinação da curva de juros e no gerenciamento da dívida pública", comentou no Twitter Sergio Goldenstein, consultor independente e estrategista na Omninvest Independent Insights e ex-chefe do Departamento de Operações de Mercado Aberto do Banco Central.
"O problema com o real continua. Apesar da elevação recente dos preços das commodities e da melhoria dos termos de troca (vide preço do minério), o desempenho absoluto e relativo continua ruim", acrescentou Goldenstein.
O Barclays espera que o BC comece a elevar os juros em agosto, com a Selic fechando o ano em 3,75%, ante os atuais 2%. Mas o banco entende que os números de inflação divulgados mais cedo podem levantar questionamentos sobre a manutenção na próxima semana do forward guidance --orientação futura, segundo a qual não pretende reduzir o grau de estímulo monetário desde que determinadas condições sejam satisfeitas.
O Comitê de Política Monetária (Copom) se reúne nos dias 19 e 20 de janeiro para decidir sobre o rumo da Selic.
1 comentário
Wall Street encerra em baixa por crescentes preocupações com inflação
Dólar sobe aos R$5,0664 puxado pelo cenário político no Brasil e pelo exterior
Ibovespa fecha em queda com ruído político local
Governo revisa regra que exigia publicação das margens de distribuidoras de combustíveis
Wall St cai na abertura com salto de rendimentos por preocupações com a inflação
Dólar supera R$5,05 pressionado por exterior e política local
Elton Szweryda Santos Paulinia - SP
Apos realização forte em 12.01, o dolar deve subir no dia de hoje. Esse vai e vem faz parte do jogo, é preciso calma e friesa.