Crescimento do processamento doméstico de milho amplia alternativas de comercialização e reduz dependência das exportações
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A expansão do etanol de milho começa a mudar não apenas o tamanho do consumo doméstico do cereal no Brasil, mas também a dinâmica de comercialização nas principais regiões produtoras. Com novas usinas e ampliação da capacidade instalada, volumes crescentes de milho passam a ser processados próximos às lavouras, criando uma demanda industrial recorrente e ampliando as alternativas de venda para o produtor.
O movimento ganhou escala rapidamente. Dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), reunidos em análise do Cepea, mostram que o volume de milho processado pelas usinas brasileiras saltou de 1,3 milhão de toneladas na safra 2017/18 para 22,4 milhões em 2025/26. Para 2026/27, a Conab estima produção de 11,91 bilhões de litros de etanol de milho, avanço de 17% na comparação anual.
A tendência é de continuidade dessa expansão. A União Nacional do Etanol de Milho (UNEM) projeta produção de 16,63 bilhões de litros em 2033/34. Considerando os rendimentos atuais, análise do Cepea aponta que esse volume poderia representar uma demanda próxima de 38 milhões de toneladas de milho.
O crescimento levanta uma questão que vai além do tamanho da indústria: a expansão do etanol está criando um novo piso estrutural de demanda para o milho brasileiro?
Para Carlos Fávaro, produtor rural, ex-ministro da Agricultura e senador por Mato Grosso, a resposta é positiva, mas exige uma distinção importante.
“A indústria do etanol de milho está criando uma nova dinâmica para o mercado de grãos. Veja o exemplo de Mato Grosso, o produtor agora conta com um consumidor permanente próximo às regiões produtoras, reduzindo a dependência da exportação do milho in natura e dos custos logísticos”, afirma.
Segundo Fávaro, essa demanda recorrente aumenta a previsibilidade e as possibilidades de comercialização, mas não deve ser confundida com garantia de preços ao agricultor.
“Esse crescimento ajuda, sim, a criar um novo piso estrutural de demanda para o milho brasileiro. Não estamos falando de um piso de preço, porque as cotações continuam sujeitas às condições de mercado, mas de uma demanda industrial recorrente, que traz mais previsibilidade e amplia as alternativas de comercialização para o produtor.”
Mato Grosso mostra mudança na destinação do milho
Mato Grosso é hoje um dos principais exemplos dessa transformação. Para a safra 2026/27, o Imea projeta consumo interno de 27,04 milhões de toneladas de milho no estado, crescimento de 16,23% sobre a temporada anterior. As exportações, por outro lado, são estimadas em 17,50 milhões de toneladas, queda de 27,39%.
O próprio instituto relaciona o avanço do consumo doméstico à abertura de novas usinas de etanol de milho e à ampliação da capacidade das unidades existentes. Com maior absorção dentro do estado e menor excedente disponível para o mercado externo, os estoques finais são projetados em 290 mil toneladas, redução de 55,77% frente à temporada anterior.
A mudança reforça uma tendência que já vinha aparecendo nos números nacionais. Em entrevista anterior ao Notícias Agrícolas, Enilson Nogueira, analista da Céleres Consultoria, destacou que o aumento do consumo doméstico vinha sendo puxado principalmente pela produção de ração e etanol. Na avaliação apresentada naquele momento, somente o segmento de etanol poderia adicionar quase 5 milhões de toneladas à demanda por milho na comparação anual.
Para Lucas Beber, presidente da Aprosoja Brasil, ampliar o consumo passou a ser uma questão estratégica para a cadeia diante da pressão sobre a rentabilidade do produtor. Durante o Fórum Mais Milho, promovido pela Abramilho, ele destacou o forte crescimento da absorção doméstica do cereal em Mato Grosso e apontou os biocombustíveis como uma das principais oportunidades para ampliar a demanda.
“Eu falo que o bonde está passando, o cavalo está passando encilhado na frente do Brasil hoje, que é justamente a demanda por biocombustíveis, a redução de emissão de carbono”, afirmou Beber.
Na avaliação do dirigente, o avanço dessa indústria permite ao Brasil não apenas agregar valor à produção agrícola, mas aproveitar a crescente procura mundial por combustíveis de menor emissão de carbono. Em outro momento do debate, Beber resumiu a importância dessa expansão para o agricultor ao afirmar que, independentemente do custo dos fertilizantes, “a nossa moeda é milho” e que uma das ações ao alcance dos produtores e entidades é trabalhar pelo aumento do consumo do cereal.
Mais compradores ampliam as alternativas do produtor
A transformação começa a aparecer também fora de Mato Grosso. Em Mato Grosso do Sul, Gabriel Balta, coordenador técnico da Aprosoja MS, relatou ao Notícias Agrícolas que a presença das usinas já aumentou a competição pelo cereal produzido no estado.
“A cerealista está brigando com as usinas de etanol em questão de preço e a usina de etanol está ganhando porque o preço está bem acima”, afirmou Balta.
A disputa ajuda a mostrar, na prática, uma das consequências da expansão industrial. O produtor passa a contar com mais compradores próximos às regiões de produção, reduzindo a dependência relativa de um único canal de escoamento e ampliando as possibilidades de comercialização.
Isso não significa, porém, que o etanol determine sozinho as cotações ou garanta preços remuneradores. Oferta doméstica, tamanho das safras brasileira e internacional, exportações, câmbio e referências externas continuam participando da formação dos preços. O que a expansão industrial acrescenta é uma demanda recorrente por matéria-prima, especialmente nas regiões próximas às usinas.
Também não significa que as exportações deixem de ser importantes. O Brasil continuará produzindo volumes de milho que exigem presença relevante no mercado internacional. A mudança está na parcela crescente da produção que encontra demanda industrial dentro das próprias regiões produtoras, diminuindo a dependência relativa do mercado externo para absorver o crescimento da oferta.
A expansão do setor ainda adiciona outros destinos ao milho. Além do etanol, o processamento gera coprodutos como os grãos secos de destilaria (DDGs), utilizados principalmente na alimentação animal, aproximando as cadeias de produção de grãos, proteína animal e energia.
Com novas unidades e ampliações de capacidade previstas para os próximos anos, a tendência é de que essa demanda continue crescendo. E é justamente aí que a ideia de um novo piso ganha sentido: não como uma barreira abaixo da qual o preço do milho não possa cair, mas como uma base mais permanente de consumo.
Para o produtor, a principal transformação trazida pela expansão do etanol de milho pode estar menos na garantia de quanto receberá pela saca e mais na maior previsibilidade de que haverá demanda pelo cereal e mais alternativas para comercializá-lo.
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