Incertezas sobre o El Niño, desafios na mão de obra e preços internacionais marcam o cenário da safra principal 2026/27 de cacau

Entre quebras climáticas na Bahia e novos patamares de preços no mercado global, o setor busca equilíbrio na reta final do ano
Publicado em 08/09/2026 14:20

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A cadeia produtiva do cacau no Brasil e no exterior inicia a reta final do ano cercada por expectativas de cautela, desafios climáticos e ajustes de mercado. Durante a Expocacau 2026, produtores, lideranças e analistas apontaram que a safra principal, que se desenvolve entre outubro e o início do ano que vem, deverá registrar volumes menores de produtividade, sobretudo no sul da Bahia. O principal fator de alerta para o período é o comportamento do clima, cujas variáveis vão definir o tamanho final da safra.

Segundo o secretário de Agricultura e Pesca de Ilhéus e produtor rural, Milton Andrade Júnior, após um regime de chuvas considerado normal até março, a região enfrentou uma redução drástica nas precipitações a partir de abril, o que já impacta a formação da safra principal. A preocupação é ampliada pela possibilidade de avanço de um El Niño de forte intensidade. "Se realmente acontecer esse fenômeno entre outubro e novembro, vai prejudicar a nossa safra; ou seja, vamos depender muito do comportamento do clima", alerta.

Apesar da apreensão com os próximos meses, os reflexos do clima já são visíveis no campo. Do ponto de vista de manejo, o produtor rural Antônio Lavigne de Lemos explicou que o inverno mais rigoroso deste ano alterou a dinâmica natural das plantas, provocando uma retração na floração em áreas tradicionais e gerando lacunas na frutificação para o próximo ciclo.

Na propriedade de Lemos, duas realidades coexistem. Na lavoura mais antiga, a florada e o desenvolvimento dos cacaueiros foram mais críticos, com baixa perspectiva de rendimento para a safra principal. Em contrapartida, as áreas mais novas apresentam floradas melhor desenvolvidas e frutos em diversos estágios de crescimento, o que garante maior eficiência produtiva com colheitas estendidas até janeiro. No entanto, caso uma estiagem severa se concretize, o produtor adverte sobre o risco de "tanto comprometer o final da nossa safra como o início da safra do ano que vem".

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Foto 1: Nas lavouras antigas da propriedade de Lemos, os frutos estão no mesmo grau de desenvolvimento e há poucas flores, demonstrando a fragilidade da área para a safra de fim de ano

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Fotos 2 e 3: Já nas lavouras mais recentes, os frutos estão em diferentes fases e a florada é mais visível, o que garante colheitas pontuais ao longo dos próximos meses

Além das intempéries climáticas, a produtora rural Cláudia Calmon de Sá chamou a atenção para um gargalo estrutural que afeta diretamente a eficiência das fazendas: a escassez crônica de mão de obra. Ela relatou ter perdido cerca de 15% de sua produção no primeiro semestre por não dispor de trabalhadores suficientes para realizar a colheita no ponto ideal de maturação. Esse déficit operacional agrava as perdas provocadas por doenças fúngicas tradicionais na região, como a vassoura-de-bruxa e a podridão-parda, transformando-se em um obstáculo severo para o avanço da produtividade média nacional.

No cenário econômico e internacional, o mercado tenta consolidar um patamar de estabilidade após a volatilidade histórica dos últimos anos, período em que as cotações dispararam a patamares recordes antes de sofrerem correções intensas. Conforme pontuou o analista de mercado da StoneX, Lucca Bezzon, os preços internacionais atualmente acomodados na faixa entre US$ 5.000 e US$ 6.000 por tonelada refletem essa busca por um ponto de equilíbrio. No entanto, essa aparente calmaria ainda convive com a sombra de incertezas ligadas à oferta global e aos reflexos da demanda industrial, que tenta se recuperar gradualmente após o impacto do encarecimento dos derivados de cacau.

Olhando para o mercado externo, a safra na África Ocidental também traz novidades. Os dois principais players globais da região (Costa do Marfim e Gana) anteciparam o início oficial da safra 2026/27 para o mês de setembro. No entanto, segundo Lucca Bezzon, o mercado permanece apreensivo com relatórios de campo que apontam irregularidades climáticas passadas e os riscos associados ao El Niño nos principais países produtores do mundo. Paralelamente, a demanda industrial global por derivados, que havia sido parcialmente destruída pelos preços recordes de 2024, recupera-se de forma gradual, mantendo-se como um fator de atenção para o rumo das cotações nos próximos meses.

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