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Déficit de armazenagem de grãos cresce até 12 milhões de toneladas por ano no Brasil e acende alerta para o milho

Produção avança 17 milhões de toneladas anuais, enquanto capacidade estática aumenta apenas 5 a 6 milhões; financiamento e estruturas dentro das fazendas são desafios
Publicado em 13/08/2026 07:15

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O Brasil está ampliando a produção de grãos em um ritmo muito superior ao crescimento da capacidade de armazenagem. Enquanto a produção aumenta cerca de 17 milhões de toneladas por ano, os investimentos acrescentam apenas 5 milhões a 6 milhões de toneladas anuais à capacidade estática, abrindo uma diferença potencial de até 12 milhões de toneladas por ano. O descompasso foi um dos principais alertas do Fórum Mais Milho, promovido pela Abramilho, e preocupa especialmente as cadeias de milho e sorgo, que têm menor valor agregado e maior exposição ao custo logístico.

Na abertura do painel, Eduardo Marcusso, Coordenador-Geral de Avaliação de Políticas Agropecuárias do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), apresentou um panorama da armazenagem brasileira e apontou que o déficit já supera 130 milhões de toneladas. Segundo os dados apresentados, apenas cerca de 15% da capacidade estática está localizada dentro das propriedades rurais.

O problema ganha dimensão diante da perspectiva de continuidade do crescimento da produção brasileira. Marcusso mostrou que as regiões de maior produção apresentam capacidade insuficiente para acompanhar o volume colhido, enquanto áreas do Sul concentram um número maior de armazéns, mas com menor capacidade individual.

"Quer dizer, a produção cresce num ritmo que a capacidade de armazenagem não consegue acompanhar", afirmou Marcusso.

Para Paulo Bertolini, presidente da Abramilho, o cenário é particularmente grave para milho e sorgo, justamente pelo peso dos custos logísticos sobre culturas de menor valor agregado. Segundo ele, o Brasil aumentou a produção de grãos em cerca de 13 milhões de toneladas por ano nos últimos 15 anos. Considerando apenas os últimos dez anos, o crescimento teria chegado a 17 milhões de toneladas anuais, enquanto a capacidade de armazenagem avançou apenas entre 5 milhões e 6 milhões de toneladas por ano.

"Então é um retrato que está mostrando um caos", resumiu Bertolini.

O descompasso tende a ganhar importância à medida que o Brasil amplia a industrialização dos grãos. Bertolini destacou que cerca de 70% do milho já é industrializado no país, enquanto 30% é destinado à exportação. Nesse modelo, a necessidade de armazenagem aumenta porque a indústria precisa funcionar durante todo o ano, e não apenas acompanhar o período de embarques.

"Na medida que o Brasil se industrializa, e é isso que a gente quer, que tenha mais etanol, mais DDG, mais DDG gera mais cadeia da proteína animal, mais valor agregado nas exportações, mais grãos nós vamos precisar ter armazenados dentro do Brasil", afirmou.

Crédito existe, mas não chega ao produtor

O painel também mostrou que o problema não está apenas na disponibilidade de recursos. Marcusso apresentou linhas de financiamento para a construção de armazéns, mas os participantes apontaram dificuldades para transformar o crédito disponível em investimentos efetivos.

Segundo dados apresentados na abertura, 25% dos agricultores não conhecem as linhas de financiamento para armazenagem, enquanto 72% afirmam que investiriam em armazéns caso as taxas de juros fossem menores.

Para Bertolini, parte do problema está na forma como os projetos são analisados pelo sistema financeiro. Segundo ele, os bancos nem sempre consideram que a armazenagem pode funcionar como uma atividade empresarial capaz de gerar receita por meio da prestação de serviços a outros produtores.

André Dobashi, vice-presidente da Aprosoja MS, reforçou essa avaliação e apontou uma dificuldade adicional: o produtor que pretende construir uma estrutura de armazenagem pode ser analisado pelo banco apenas sob a ótica da produção agrícola, enquanto empresas que atuam diretamente com armazenagem podem encontrar dificuldades por não se enquadrarem nos critérios tradicionais de financiamento rural.

"O agricultor empresário que quer prestar o serviço para armazenamento não consegue pegar o financiamento porque o banco vê ele como produtor. E o produtor que quer pulverizar a sua produção em pequenas unidades de armazenamento não consegue pegar o dinheiro porque o banco vê ele como empresário", afirmou Dobashi.

Na avaliação de Dobashi, uma alternativa seria estimular a construção de unidades menores e mais pulverizadas nas propriedades, reduzindo o volume necessário para cada investimento e aproximando a estrutura das regiões produtoras.

O vice-presidente da Aprosoja MS também defendeu que a discussão avance para além da capacidade estática. Para ele, ampliar estruturas de beneficiamento, com secagem, padronização e retirada de impurezas, poderia reduzir descontos e perdas no momento da comercialização.

A possibilidade de entregar um produto dentro dos padrões adequados também aumenta a capacidade de o produtor decidir quando vender e evita que problemas de qualidade reduzam o valor da produção armazenada.

Fabrício Rosa, diretor executivo da Aprosoja Brasil, destacou outro obstáculo: o custo do dinheiro. Segundo ele, a taxa de juros historicamente aparece entre os principais entraves apontados pelos produtores nas pesquisas sobre financiamento de armazenagem.

Por isso, Rosa defendeu um modelo de crédito com horizonte mais longo, menor burocracia e condições compatíveis com o retorno do investimento.

"Não há dúvida de que, quando a gente constrói um modelo que não é anual, ou um horizonte um pouco maior, você consegue colocar a armazenagem como algo realmente estratégico para o país", afirmou.

O diretor executivo da Aprosoja Brasil também chamou atenção para a dificuldade de oferecer garantias para novos financiamentos. Na avaliação dele, muitos produtores já não possuem capacidade para apresentar garantias suficientes e ampliar sua alavancagem, o que reforça a necessidade de mecanismos garantidores específicos para os investimentos no setor.

Mais armazenagem dentro das fazendas

Além de reduzir gargalos logísticos, a armazenagem muda a posição do produtor diante do mercado. Sem estrutura própria, uma parcela da produção precisa ser comercializada imediatamente após a colheita, justamente quando há maior concentração de oferta e pressão sobre transporte e preços.

Marcusso destacou que a falta de armazenagem provoca uma corrida pelo escoamento durante a safra e aumenta os custos logísticos. A estrutura disponível na propriedade, por outro lado, permite ao produtor administrar melhor o momento de comercialização.

Bertolini reforçou que, em um país com forte participação das exportações, caminhões, ferrovias e navios acabam funcionando parcialmente como uma extensão da armazenagem ao transportar rapidamente os grãos até os portos. Esse modelo, porém, perde eficiência conforme aumenta a industrialização interna.

A comparação com os Estados Unidos também foi utilizada para mostrar o espaço existente para avanço no Brasil. Segundo Bertolini, mais de 60% da capacidade estática norte-americana está localizada dentro das propriedades rurais, permitindo ao produtor armazenar mais de uma safra.

No Brasil, a participação da armazenagem nas fazendas permanece muito menor. Para os participantes do painel, ampliar essa estrutura é fundamental principalmente nas regiões onde a produção cresce mais rapidamente.

Marcusso ressaltou, porém, que não basta simplesmente aumentar a capacidade total. É necessário identificar onde estão os déficits e direcionar os investimentos para os pontos em que produção e logística apresentam maior necessidade.

"Então, onde precisa de armazém? Então, na beira da estrada, eu vou colocar onde você tem a produção e a linha de exportação", afirmou.

O debate também apontou que mudanças regulatórias podem ajudar nesse processo. Marcusso citou alterações feitas na legislação para tornar voluntária a certificação de armazéns que prestam serviços a terceiros, buscando reduzir entraves e facilitar a expansão da infraestrutura.

Armazenagem deixa de ser estrutura complementar

Para os participantes do painel, a armazenagem deixou de ser apenas uma questão de infraestrutura para se tornar um componente estratégico da expansão do agronegócio brasileiro.

O Brasil tem condições de continuar ampliando a produção, mas precisará solucionar gargalos logísticos e de pós-colheita para sustentar esse crescimento. Nesse cenário, a armazenagem passa a ter papel direto na competitividade, na comercialização e na capacidade de industrialização dos grãos.

No encerramento do painel, Glauber Silveira, diretor da Abramilho, destacou justamente essa mudança na visão do produtor. Em vez de representar apenas uma estrutura complementar após a colheita, a armazenagem passou a ser considerada parte do próprio negócio.

"Então, o negócio da armazenagem passou a ser um negócio estratégico pra ele", afirmou.

Para Silveira, porém, as políticas atualmente disponíveis ajudam, mas não são suficientes para acompanhar o ritmo de expansão da produção.

"Como que a armazenagem vai acompanhar isso? Então, é um problema sério", afirmou.

A conclusão do Fórum Mais Milho foi de que a solução passa por uma discussão conjunta entre governo, setor financeiro, indústria e produtores, com mudanças nas condições de financiamento e expansão da armazenagem principalmente dentro das propriedades rurais.

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Por:
Guilherme Dorigatti
Fonte:
Notícias Agrícolas

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