Nutrição de precisão pode reduzir custos e elevar eficiência na suinocultura
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O pesquisador Bruno Silva, da Universidade Federal de Minas Gerais, explicou durante entrevista ao podcast do portal Notícias Agrícolas, como a nutrição de precisão vem sendo aplicada na suinocultura para melhorar resultados produtivos nas granjas, por meio do uso de tecnologia e análise de dados.
Segundo ele, o conceito consiste em fornecer diariamente aos animais exatamente os nutrientes de que precisam, ajustando a dieta conforme as mudanças fisiológicas ao longo do tempo. A abordagem ganha relevância especialmente em sistemas modernos, onde há maior exigência produtiva e necessidade de eficiência econômica. O objetivo principal é reduzir custos, evitar desperdícios e aumentar o desempenho dos animais.
De acordo com o especialista, o maior impacto da nutrição de precisão está na economia dentro do sistema produtivo, especialmente na redução do custo com alimentação. “A alimentação representa entre 70% e 75% das despesas na suinocultura. Ao ajustar a dieta com base nas necessidades reais do animal, o produtor evita excessos e deficiências nutricionais, o que gera economia direta. Quando eu implemento a nutrição de precisão, eu estou entregando exatamente o que o animal precisa, então eu consigo economizar”, afirmou.
Esse controle mais fino da alimentação pode gerar impactos significativos na rentabilidade. “Na fase de maternidade, por exemplo, a aplicação correta da tecnologia pode reduzir em até 11% o custo por quilo de leitão produzido. Isso pode gerar um impacto de até 11% no custo do quilo do leitão produzido na minha maternidade”, destacou. Além da economia, há ganhos em eficiência produtiva e menor desperdício de nutrientes.
Dados e tecnologia são a base da eficiência
Para alcançar esses resultados, o pesquisador reforça que o primeiro passo é a adoção de uma cultura de dados dentro da granja. “Sem informações confiáveis, não é possível aplicar corretamente os conceitos de nutrição de precisão. É necessário acompanhar indicadores como condição corporal, desempenho produtivo e potencial genético dos animais. Sem dados, sem conhecer os números da granja, infelizmente eu não consigo implementar tecnologia”, explicou.
De acordo com o pesquisador, a coleta e análise dessas informações permitem ajustar modelos nutricionais mais adequados à realidade de cada propriedade. Com isso, o produtor consegue tomar decisões mais assertivas no manejo alimentar.
Outro ponto importante é o uso de tecnologia para automatizar e personalizar a alimentação. Sistemas modernos permitem ajustar a formulação da ração diariamente, acompanhando as mudanças na exigência nutricional dos animais. Essa dinâmica é essencial, já que as necessidades variam constantemente ao longo do ciclo produtivo.
Alimentação ajustada melhora desempenho e reduz perdas
A nutrição de precisão também contribui para melhorar o desempenho dos animais e reduzir perdas produtivas. Segundo Bruno Silva, quando a dieta não atende corretamente às exigências nutricionais, os impactos aparecem em indicadores como peso ao desmame, número de leitões e eficiência reprodutiva.
“O animal nos diz o que está acontecendo”, afirmou. Ele explica que perdas excessivas de condição corporal, por exemplo, indicam falhas na dieta ou no manejo alimentar. Essas falhas podem comprometer não apenas a fase atual, mas também o desempenho futuro das matrizes.
Além disso, a tecnologia permite ajustar a alimentação de forma contínua, acompanhando a demanda real do animal. Isso evita tanto o desperdício de ração quanto problemas causados por deficiências nutricionais. Como resultado, há melhoria na eficiência do sistema e maior retorno econômico para o produtor.
Adaptação à realidade da granja é possível
Mesmo em propriedades com menor nível tecnológico, é possível iniciar a adoção do conceito de nutrição de precisão. Segundo o pesquisador, o primeiro passo é reconhecer que os animais possuem necessidades diferentes e que devem ser alimentados de forma adequada a essas diferenças.
“Eu preciso entender que tenho variação entre animais e que preciso alimentar de forma diferenciada”, destacou. Um exemplo prático é a separação entre fêmeas jovens e adultas, que possuem exigências nutricionais distintas. Apenas essa mudança já representa um avanço na direção da nutrição de precisão.
Quando não há estrutura para múltiplas dietas, o produtor pode adotar estratégias complementares, como suplementação específica. “A gente busca trabalhar conceitos como nutrição ‘on top’, que seria uma complementação diária para fechar a exigência nutricional”, explicou.
Comportamento alimentar exige atenção do produtor
Um dos pontos mais críticos apontados pelo pesquisador é o desconhecimento do comportamento alimentar das matrizes. Segundo ele, grande parte dos produtores ainda utiliza práticas baseadas em hábitos humanos, o que não corresponde à realidade dos animais.
“80% do perfil alimentar de uma fêmea ocorre durante a noite”, afirmou. Isso significa que o manejo alimentar precisa ser ajustado para atender esse padrão natural. No entanto, muitas granjas concentram a oferta de alimento durante o dia, quando os funcionários estão presentes.
Esse desencontro entre comportamento animal e manejo pode comprometer o consumo de nutrientes e, consequentemente, a produtividade. Além disso, em regiões de clima quente, o consumo diurno é ainda mais reduzido devido ao estresse térmico.
“O animal não come como a gente”, destacou o pesquisador. Ele reforça que entender o comportamento alimentar é essencial para garantir que a fêmea receba os nutrientes necessários no momento adequado.
Investimento em tecnologia e pessoas é essencial
Para avançar na nutrição de precisão, o produtor precisa investir não apenas em equipamentos, mas também em estrutura e capacitação da equipe. A tecnologia exige um sistema completo, incluindo internet, monitoramento e mão de obra qualificada.
“Não adianta trazer tecnologia se quem está no dia a dia não tem capacitação suficiente”, alertou. O treinamento da equipe é fundamental para interpretar os dados e operar os sistemas corretamente.
Ele também destaca que a implementação não precisa ser complexa. Mesmo granjas mais antigas podem ser adaptadas para receber tecnologia, desde que haja planejamento e organização. O importante é dar os primeiros passos e evoluir gradualmente.
Mensagem final ao produtor rural
Na avaliação do especialista, a suinocultura moderna exige uma mudança de mentalidade. Os animais atuais possuem alto potencial produtivo e precisam de uma nutrição compatível com essa exigência. No entanto, muitos sistemas ainda utilizam práticas antigas.
“O problema é que ainda seguimos alimentando como se fosse há 20 anos atrás”, afirmou. Segundo Silva, isso tem contribuído para problemas como alta taxa de mortalidade de matrizes, muitas vezes ligada a falhas nutricionais.
Para o pesquisador o produtor precisa enxergar a nutrição como investimento, não como custo. “Ela precisa de mais, precisa de um investimento melhor para responder ao potencial genético que tem”, destacou. A nutrição de precisão, nesse cenário, surge como uma ferramenta essencial para aumentar a eficiência e garantir sustentabilidade ao sistema produtivo.
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