Biosseguridade bem feita: onde as granjas ainda estão falhando?
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O avanço da produção animal no Brasil trouxe ganhos expressivos em eficiência, mas também elevou o nível de exigência sanitária nas propriedades rurais. Em um cenário global cada vez mais atento à segurança dos alimentos, a biosseguridade deixou de ser diferencial e passou a ser condição básica para permanecer no mercado. Ainda assim, falhas simples continuam sendo recorrentes nas granjas brasileiras.
Durante palestra sobre o tema, o médico veterinário e Consultor de Sanidade e Biosseguridade, Dr. Paulo Roberto Rafi, destacou que o conceito não é novo, mas segue sendo mal executado no campo. “O tema biosseguridade é um tema extremamente importante, vem ganhando relevância no mundo inteiro”, afirmou o especialista, ao ressaltar o crescimento da atenção global sobre o assunto.
Com 33 anos de experiência na produção animal, ele reforça que não existem soluções milagrosas. “Não existe nada milagroso, mas é a questão de o que eu faço e como eu olho tempos e movimentos e fluxo dentro da cadeia”, explicou, destacando que o sucesso depende da disciplina na rotina.
Falhas simples que geram grandes riscos
Um dos principais problemas observados nas granjas é o controle inadequado de acesso. Entradas e saídas de pessoas, veículos e materiais muitas vezes não são registradas corretamente. “Essas situações comprometem a rastreabilidade e isso pode se tornar crítico em momentos de crise sanitária”, alerta.
“Se tiver uma suspeita, a primeira coisa que o Serviço Veterinário Oficial vai pedir é a rastreabilidade dos fluxos”, reforçou o especialista, destacando a importância de registros bem feitos e organizados.
Outro ponto crítico é a falta de higienização de veículos e equipamentos. “Em muitas propriedades, a limpeza deixa de ser realizada por economia ou descuido. Às vezes por economia, não lava, não desinfeta, e isso assusta bastante”, afirmou.
Estrutura existe, mas o manejo falha
Apesar de muitas granjas apresentarem boa estrutura, o manejo inadequado compromete o sistema. “Telas rasgadas, portões abertos e falhas de vedação são problemas frequentes. Esses detalhes facilitam a entrada de aves silvestres e aumentam o risco sanitário”, explica.
O especialista chama atenção para a normalização do erro no dia a dia. “Eu me acostumo com o problema e depois fico remediando”, afirmou, ao explicar que a falta de correção imediata agrava os riscos.
Outro exemplo recorrente é a presença de aves dentro dos galpões. “Passarinho dentro, junto com as aves, e se considera isso normal”, destacou. Para o médico veterinário, falhas simples podem comprometer todo o sistema produtivo.
Comportamento humano é o maior desafio
Além da estrutura, o comportamento das pessoas é um dos maiores desafios da biosseguridade. “Hábitos fora da granja podem representar risco direto para a produção, especialmente quando não há orientação adequada”.
O especialista reforça a importância da gestão e do controle contínuo. “Se eu não meço, eu não gerencio. Eu não sei se eu estou bom ou se eu estou ruim”, afirmou.
A falta de treinamento também contribui para os erros. Muitas equipes não recebem capacitação suficiente, o que compromete a execução das práticas básicas. “Hoje não se comporta dentro da produção se eu não tiver mensuração”, reforçou.
Planejamento e gestão reduzem riscos
A adoção de ferramentas de gestão pode transformar a biosseguridade dentro das granjas. Checklists, análises de risco e classificação das propriedades ajudam a identificar falhas e priorizar ações.
O especialista destaca que existem caminhos simples para começar. “Eu posso começar por planilhas de avaliação de risco e ver quais são os graus de risco dentro da propriedade”, orientou.
Além disso, o uso de tecnologia pode acelerar esse processo. Sistemas automatizados permitem maior controle e organização das informações, contribuindo para decisões mais assertivas.
Investir antes do problema custa menos
Um dos principais pontos levantados pelo especialista é o custo das falhas. Muitos produtores ainda enxergam a biosseguridade como despesa, quando na verdade se trata de proteção do negócio.
“Quanto significou o surto? Quanto eu poderia ter investido para não ficar remediando depois?”, questionou Dr. Paulo Roberto, ao destacar o impacto econômico das doenças.
Ele também reforça que a biosseguridade precisa ser parte da rotina. “Eu tenho que medir o nível de biosseguridade de cada granja”, afirmou, ressaltando a importância da gestão contínua.
O básico ainda faz a diferença
Mesmo com avanços tecnológicos, o especialista reforça que o básico continua sendo essencial. Ações simples, quando bem executadas, têm grande impacto na prevenção de doenças.
A biosseguridade eficiente exige disciplina, organização e atenção aos detalhes. Em um setor cada vez mais competitivo, cumprir bem os fundamentos pode ser o diferencial entre prejuízo e rentabilidade. Mais do que uma prática, trata-se de prevenção: quanto mais rigorosos forem os cuidados com acesso, higienização e manejo, menores serão os riscos sanitários e maiores as chances de uma produção saudável e lucrativa.
Passo a passo de biosseguridade na avicultura
1. Controle de acesso à granja
Instale cerca ao redor (mínimo 1 metro de altura)
Mantenha portões fechados
Só permita entrada de pessoas autorizadas
Objetivo: evitar entrada de pessoas e animais que possam trazer doenças.
2. Crie uma barreira sanitária na entrada
Tenha um vestiário/escritório na entrada
Troque roupas e calçados antes de entrar
Use pédilúvio (recipiente com desinfetante para os pés)
Objetivo: impedir que doenças entrem “carregadas” pelas pessoas.
3. Proteja o aviário contra aves e contaminantes
Instale telas anti-pássaros (malha até 2,54 cm)
Utilize cortina vegetal ao redor
Objetivo: evitar contato com aves externas e contaminação pelo ar.
4. Desinfete veículos
Utilize arco de desinfecção na entrada
Higienize caminhões (ração, transporte de aves)
Objetivo: bloquear a entrada de vírus e bactérias vindos de outras granjas.
6. Destine corretamente aves mortas
Utilize composteira
Objetivo: evitar contaminação do ambiente e disseminação de doenças.
7. Faça o manejo correto dos resíduos
Separe o lixo: Reciclável - Orgânico - Não reciclável - Use lixeiras adequadas
Objetivo: manter a granja limpa e organizada.
8. Sinalize a propriedade
Coloque placas de advertência
Objetivo: deixar claro que a entrada é controlada.
9. Mantenha organização e limpeza (Programa 5S)
Utilize: Organização/ Limpeza/ Higiene Disciplina
Objetivo: melhorar a sanidade e o bem-estar no trabalho.
10. Capriche no manejo das aves
Siga boas práticas de produção
Garanta alimentação, ambiência e cuidados corretos
Objetivo: fortalecer a imunidade das aves.
Informações: Embrapa: https://www.embrapa.br/busca-de-publicacoes/-/publicacao/444151/tecnologias-que-promovem-a-biosseguridade-na-producao-avicola
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