Torção do mesentério em suínos: evidências genéticas e implicações para o melhoramento animal
A torção do mesentério consiste em uma condição aguda caracterizada pela rotação parcial ou total das alças intestinais em torno do eixo mesentérico, levando à interrupção do fluxo sanguíneo, distensão abdominal e morte súbita dos animais. A enfermidade está entre as principais causas de mortalidade nas fases de crescimento e terminação, com incidência variando de 0,9% a 4% em sistemas comerciais.
A ocorrência é mais frequente em suínos jovens, entre 4 e 6 meses de idade, especialmente aqueles com alto desempenho produtivo. Por ocorrer no final do ciclo, os impactos econômicos são significativos, além de comprometer o bem-estar animal.
Etiologia multifatorial envolve manejo, ambiente e anatomia
A síndrome apresenta caráter multifatorial, envolvendo:
- Características anatômicas do trato digestivo
- Manejo alimentar e comportamento ingestivo
- Qualidade e fermentabilidade da dieta
- Condições ambientais, como temperatura elevada
- Dinâmica social e competição em baias coletivas
A ingestão rápida de grandes volumes de ração, associada à produção excessiva de gases e movimentos bruscos, favorece a ocorrência da torção intestinal.
Evidências confirmam componente genético
Estudos recentes conduzidos com base em dados de pedigree e genômica demonstraram a existência de variabilidade genética associada à torção do mesentério. A análise de mais de 66 mil suínos evidenciou herdabilidade baixa (entre 0,12 e 0,13), indicando que fatores ambientais têm maior influência, mas que a seleção genética é viável.
Embora o progresso genético seja mais lento devido à baixa herdabilidade, a identificação de animais menos suscetíveis permite reduzir a incidência da síndrome ao longo das gerações.
Correlações com desempenho produtivo orientam seleção
As análises indicaram correlações genéticas de baixa a moderada entre a torção do mesentério e características produtivas, como:
- Dias para atingir 110 kg
- Conversão alimentar
- Espessura de toucinho
Os resultados sugerem que animais com pior desempenho — maior tempo de crescimento e menor eficiência alimentar — apresentam maior predisposição à síndrome. Por outro lado, a seleção para melhor eficiência produtiva pode contribuir indiretamente para a redução da ocorrência.
Abordagem genômica identifica regiões associadas
A aplicação de estudos de associação genômica ampla (GWAS) permitiu identificar 52 regiões genômicas associadas à torção do mesentério, distribuídas em 15 cromossomos. Foram mapeados 299 genes candidatos, reforçando o caráter poligênico da condição.
Entre os principais processos biológicos relacionados destacam-se:
- Morfogênese e desenvolvimento intestinal
- Diferenciação epitelial e integridade da mucosa
- Motilidade e permeabilidade intestinal
- Digestão e metabolismo
- Comportamento alimentar
Alterações nesses mecanismos podem favorecer disbiose, fermentação excessiva, trânsito intestinal inadequado e maior risco de torção.
Marcadores moleculares ampliam precisão da seleção
A identificação de polimorfismos do tipo SNP associados à síndrome possibilita o uso de marcadores moleculares em programas de melhoramento genético. Essa abordagem permite:
- Seleção precoce de animais menos suscetíveis
- Maior acurácia na avaliação genética
- Redução do intervalo entre gerações
- Ganhos genéticos mais consistentes
Além disso, a utilização de informações genômicas é especialmente relevante para características de difícil mensuração, como a torção do mesentério, que resulta em morte súbita.
Integração entre genética e manejo é essencial
Apesar dos avanços genéticos, práticas de manejo continuam sendo fundamentais para mitigação do problema, incluindo:
- Regularidade no fornecimento de ração
- Redução da competição alimentar
- Controle de dietas altamente fermentáveis
- Monitoramento de condições térmicas
- Manejo adequado de lotes e hierarquia social
No entanto, diferentemente do manejo, a seleção genética proporciona efeito cumulativo e permanente ao longo das gerações.
Estratégia genética é caminho para controle sustentável
A presença de variabilidade genética, ainda que limitada, confirma o potencial de inclusão da torção do mesentério em programas de seleção. A utilização de valores genéticos e marcadores moleculares representa uma estratégia consistente para reduzir a incidência da síndrome.
Os resultados obtidos contribuem para o entendimento dos mecanismos biológicos envolvidos e oferecem base técnica para o desenvolvimento de linhagens mais resistentes, com impacto direto na eficiência produtiva, redução de perdas e melhoria do bem-estar animal na suinocultura.
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