China amplia habilitações dos EUA, mas baixa oferta bovina sustenta espaço da carne brasileira

Publicado em 19/05/2026 11:07 e atualizado em 19/05/2026 11:52
Renovação de registros para plantas frigoríficas norte-americanas reduz atritos comerciais, porém escassez de animais limita competitividade dos Estados Unidos diante do Brasil no mercado chinês.

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A decisão de Pequim de estender por mais cinco anos as autorizações de 425 frigoríficos dos Estados Unidos voltou a movimentar o mercado global de carne bovina. Além da renovação das unidades já aptas, a China também liberou outros 77 estabelecimentos americanos para comercializar proteína animal no país asiático. Somente 38 plantas ficaram fora da nova relação.

A medida acontece após um período de forte retração dos embarques norte-americanos para o território chinês. Segundo dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), em janeiro de 2026 as vendas americanas recuaram 94% em volume e 97% em receita na comparação anual. O enfraquecimento dos negócios ocorreu após o aumento de tarifas imposto pelo presidente Donald Trump, desencadeando respostas comerciais do governo chinês.

Apesar da retomada das habilitações, especialistas enxergam impacto moderado sobre o desempenho brasileiro no curto prazo. Isso porque a pecuária dos EUA atravessa uma fase delicada, marcada por escassez de animais, despesas elevadas dentro das fazendas e dificuldade na recomposição do plantel.

Redução do rebanho limita capacidade exportadora

Dados do relatório oficial de inventário pecuário, divulgado pelo USDA em fevereiro de 2026, mostram que o efetivo bovino norte-americano caiu para 86,2 milhões de cabeças, menor patamar desde 1951. O número de vacas de corte também encolheu, atingindo 27,6 milhões de matrizes, nível mais baixo desde 1961. Em 1975, auge histórico da atividade no país, os EUA contabilizavam 132 milhões de bovinos e 45,7 milhões de fêmeas destinadas à produção.

Para o analista de Inteligência de Mercado Rodrigo de Assis Dutra Costa, a conjuntura atual reduz o potencial americano de ampliar embarques internacionais rapidamente. “Os Estados Unidos voltam a disputar espaço na China, mas retornam com menos produto disponível e custos muito superiores aos praticados pelo Brasil”, afirmou.

O especialista ressalta ainda que fatores climáticos e econômicos seguem pressionando o setor pecuário dos EUA. “A seca prolongada, somada ao alto custo de produção e aos preços recordes da arroba, criou uma situação paradoxal. O produtor prefere vender animais valorizados no mercado ao invés de investir fortemente na recomposição do rebanho”, explicou Rodrigo de Assis Dutra Costa.

Valores elevados favorecem produto brasileiro

Na avaliação do analista, além da menor disponibilidade de bovinos, os exportadores americanos enfrentam dificuldade para competir devido ao alto valor da matéria-prima. Hoje, a diferença da arroba entre Estados Unidos e Brasil supera US$ 55/@, fator considerado relevante nas negociações com compradores chineses.

Rodrigo de Assis Dutra Costa acredita que essa diferença seguirá favorecendo os embarques brasileiros nos próximos meses. “Mesmo com as portas reabertas, os americanos terão dificuldade para competir em preço. O mercado chinês busca volume, regularidade e previsibilidade de abastecimento”, destacou.

Segundo ele, a estratégia chinesa também passa pela diversificação de fornecedores. “Pequim tenta equilibrar sua segurança alimentar garantindo múltiplas origens de proteína animal. Isso não significa substituir o Brasil, mas reduzir riscos comerciais em um ambiente global mais instável”, comentou.

Pequim busca equilíbrio no abastecimento

Outro ponto acompanhado pelo mercado envolve as salvaguardas comerciais aplicadas sobre países da América do Sul. A ampliação das habilitações americanas ajuda a China a reduzir parte da pressão existente sobre as cotas utilizadas por Brasil e Argentina.

Mesmo assim, agentes do setor avaliam que o país asiático continuará dependente da carne bovina brasileira para atender sua demanda doméstica. O avanço do consumo interno chinês e a necessidade de manutenção de estoques sustentam o elevado interesse pelo produto brasileiro.

“Pode haver ajustes nas cotas e realinhamentos comerciais ao longo do ano, mas dificilmente a China abrirá mão da participação brasileira nesse abastecimento”, observou o analista. “O Brasil segue como fornecedor essencial pela combinação entre escala produtiva, capacidade exportadora e competitividade”, acrescentou.

Embarques aos EUA mantêm desempenho positivo

Paralelamente às mudanças no mercado chinês, o Brasil também segue ampliando negócios com os Estados Unidos. Os números de 2026 mostram avanço consistente nos primeiros meses do ano, apesar de algumas oscilações na comparação anual.

Em janeiro, os embarques brasileiros destinados aos EUA totalizaram 24,89 milhões de quilos, crescimento de 6,85% sobre dezembro de 2025 e avanço de 55,35% frente ao mesmo mês do ano anterior. Em fevereiro, o volume subiu para 33,23 milhões de quilos, alta de 33,52% ante janeiro e de 48,81% na comparação anual.

Já março registrou recuo mensal de 2,91%, somando 32,27 milhões de quilos exportados, além de queda de 9,83% sobre março de 2025. Em abril, houve recuperação, com 34,15 milhões de quilos embarcados, avanço de 5,82% frente ao mês anterior, embora abaixo do resultado observado no mesmo período do ano passado.

O comportamento do rebanho americano continuará sendo acompanhado de perto pelo mercado internacional ao longo de 2026. Apesar do primeiro sinal positivo na retenção de novilhas, indicado pelo USDA em janeiro, a recomposição produtiva nos Estados Unidos ainda deverá avançar lentamente.

 

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Por:
Michelle Jardim
Fonte:
Notícias Agrícolas

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