Fenagra 2026: “Cada 1% de aumento no biodiesel representa mais soja processada, renda no campo e redução no preço dos alimentos”, afirma CEO da Binatural

Publicado em 14/05/2026 08:13 e atualizado em 15/05/2026 14:49
Em entrevista ao Notícias Agrícolas, André Lavor destacou os impactos do biodiesel para a cadeia da soja, agricultura familiar, segurança energética e descarbonização da economia.

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Durante o 3º Fórum Biodiesel e Bioquerosene (SAF), realizado paralelamente à Fenagra 2026, os debates sobre expansão dos biocombustíveis ganharam força diante das discussões sobre segurança energética, agregação de valor ao agro e metas globais de descarbonização.

Em entrevista ao Notícias Agrícolas, André Lavor, CEO da Binatural, afirmou que o aumento da mistura obrigatória do biodiesel ao diesel pode gerar impactos positivos diretos para toda a cadeia da soja, além de ampliar a renda no campo, fortalecer a agricultura familiar e reduzir custos relacionados aos alimentos.

O executivo também defendeu a implementação das diretrizes previstas na Lei do Combustível do Futuro e destacou o potencial do biodiesel em setores como transporte ferroviário, mineração, geração termoelétrica e navegação.

Notícias Agrícolas: O Brasil caminha para uma safra histórica de soja, com estimativas acima de 180 milhões de toneladas. Como o senhor avalia a importância da cadeia da soja dentro desse cenário de expansão dos biocombustíveis?

André Lavor: Este é um momento extremamente relevante para discutirmos agregação de valor dentro da cadeia da soja. O Brasil deve colher uma safra recorde, mas cerca de dois terços dessa produção ainda são exportados in natura, sem industrialização interna. Apenas um terço efetivamente gera valor agregado dentro do país.

Quando falamos em aumento da mistura de biodiesel, estamos falando diretamente em ampliação do esmagamento da soja. Cada 1% adicional na mistura representa aproximadamente 3 milhões de toneladas de soja processadas internamente. Isso significa mais geração de empregos, renda, arrecadação e desenvolvimento econômico.

A industrialização gera, de forma direta, cerca de quatro vezes mais valor do que a simples exportação do grão. E quando consideramos todos os impactos indiretos e sociais ao longo da cadeia, esse efeito pode superar 12 vezes o valor originalmente gerado.

Notícias Agrícolas: Além da geração de valor econômico, qual é o impacto do biodiesel sobre a cadeia de alimentos?

André Lavor: Esse é um ponto muito importante. Muitas vezes as pessoas associam a soja apenas ao óleo, mas cerca de 80% do grão se transforma em farelo, que é a principal base da proteína animal. O óleo representa aproximadamente 20% do processamento.

Ou seja, quando ampliamos o esmagamento da soja, aumentamos também a oferta de farelo, reduzindo custos da produção de proteínas e contribuindo diretamente para diminuir os preços dos alimentos ao consumidor.

Somente em 2024, o aumento da oferta de farelo proporcionado pelo avanço do biodiesel gerou uma redução estimada em mais de R$ 3,5 bilhões nos custos relacionados aos alimentos. Portanto, o biodiesel não impacta apenas energia ou combustíveis; ele influencia toda a cadeia alimentar.

Notícias Agrícolas: O senhor também destacou durante o fórum a importância da agricultura familiar dentro desse sistema. Qual é o papel desse segmento no biodiesel brasileiro?

André Lavor: A agricultura familiar é um dos pilares do programa nacional de biodiesel. Desde a criação do Programa Nacional de Produção e Uso do Biodiesel, em 2005, mais de 300 mil agricultores familiares já foram beneficiados por meio do Selo Biocombustível Social.

Grande parte desses produtores está concentrada nas regiões Norte, Nordeste e Semiárido, áreas que historicamente necessitam de maior desenvolvimento econômico e geração de oportunidades.

No caso da Binatural, nosso trabalho de fomento envolve mais de 25 mil famílias em cerca de 1.100 municípios. Cada ponto percentual adicional na mistura do biodiesel representa potencialmente a inclusão de mais 25 mil agricultores familiares dentro do programa.

Além da geração de renda, existe um impacto social extremamente relevante, com assistência técnica, fortalecimento de cooperativas e redução do êxodo rural.

Notícias Agrícolas: Sua palestra durante o fórum abordou novas aplicações para o biodiesel. O que o setor busca expandir além da mistura obrigatória?

André Lavor: Hoje o biodiesel já não pode mais ser visto apenas dentro da lógica do B15. Existe um enorme potencial de expansão em diversos segmentos da economia.

O setor termoelétrico, por exemplo, possui capacidade de utilizar B100 como fonte energética. Em vez de operar com óleo combustível ou diesel fóssil, parte dessas usinas poderá utilizar biodiesel integralmente. Isso amplia a segurança energética e reduz emissões.

Também observamos avanços importantes no setor ferroviário, que já realiza testes com B30 e B50, além do transporte marítimo e da mineração, setores altamente consumidores de diesel e que possuem grande potencial de descarbonização.

Notícias Agrícolas: Então o biodiesel pode ter impacto sobre praticamente toda a economia brasileira?

André Lavor: Sem dúvida. Estamos falando de um combustível com capacidade de descarbonizar diversos setores simultaneamente. O biodiesel reduz em mais de 80% as emissões de gases de efeito estufa em comparação ao diesel fóssil.

Ao mesmo tempo, ele fortalece a segurança energética nacional. O Brasil ainda depende da importação de diesel, e os recentes conflitos internacionais mostraram claramente a fragilidade dessa dependência externa.

O biodiesel reúne benefícios ambientais, econômicos e sociais em uma única cadeia. Por isso, defendemos não apenas a manutenção da política atual, mas a ampliação gradual do seu uso.

Notícias Agrícolas: O setor esperava avanço da mistura obrigatória ainda neste ano. Na sua avaliação, por que isso ainda não aconteceu?

André Lavor: A Lei do Combustível do Futuro estabeleceu diretrizes importantes para ampliação gradual dos biocombustíveis. O incremento da mistura depende de discussões e formalizações dentro do CNPE, envolvendo critérios técnicos e regulatórios. Na minha avaliação, diante do cenário atual, o biodiesel já demonstrou ser estratégico para o país, tanto pela segurança energética quanto pelos benefícios econômicos, sociais e ambientais que entrega. Talvez o que falte neste momento seja justamente priorização dessa agenda. O setor já está preparado, a cadeia produtiva responde positivamente e os benefícios são amplamente conhecidos.

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Por:
Michelle Jardim
Fonte:
Notícias Agrícolas

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