Fenagra 2026: “O Brasil já reúne condições para ampliar a mistura de biodiesel”, afirma Grupo Potencial

Publicado em 14/05/2026 06:52 e atualizado em 14/05/2026 07:44
Durante o 3º Fórum Biodiesel e Bioquerosene, executivo defendeu previsibilidade regulatória, destacou o avanço dos biocombustíveis e apontou oportunidades para soja e milho

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Durante o 3º Fórum Biodiesel e Bioquerosene, realizado paralelamente à Fenagra 2026, temas ligados à transição energética, à expansão dos biocombustíveis e à agregação de valor no agronegócio dominaram os debates do setor. Em entrevista ao Notícias Agrícolas, Carlos Eduardo Hammerschmidt, vice-presidente do Grupo Potencial, afirmou que o país já dispõe de estrutura suficiente para elevar a mistura obrigatória de biodiesel ao diesel e criticou a lentidão na execução das diretrizes previstas pela Lei do Combustível do Futuro.

O executivo também detalhou os aportes bilionários da companhia no Paraná, envolvendo soja, biodiesel, glicerina refinada e etanol de milho, além dos reflexos esperados para agricultores, geração de renda e fortalecimento da economia regional.

Notícias Agrícolas: O mercado acompanha com expectativa a possibilidade de avanço da mistura obrigatória do biodiesel, do B15 para o B16, especialmente entre os produtores de soja. Como o senhor avalia esse cenário e o adiamento dessa definição?

Carlos Eduardo Hammerschmidt: O Brasil já possui capacidade industrial suficiente para atender misturas de até 22%. Atualmente, produzimos algo próximo de 10 bilhões de litros de biodiesel por ano, mas a estrutura instalada permitiria alcançar cerca de 17 bilhões de litros.

Na minha avaliação, este é um momento extremamente favorável para ampliar a participação do biodiesel, sobretudo diante das recentes tensões geopolíticas e dos episódios de desabastecimento registrados em diferentes regiões do mundo, como ocorreu no Estreito de Ormuz. Esses acontecimentos evidenciam que nenhum país pode permanecer excessivamente dependente do petróleo.

O Brasil construiu, ao longo dos anos, uma ampla rede de biorrefinarias. Quando somamos esmagadoras de soja, usinas de etanol de cana, unidades de etanol de milho e plantas de biodiesel, chegamos a aproximadamente 500 indústrias distribuídas pelo território nacional. Isso reduz despesas logísticas, encurta distâncias e melhora a eficiência da cadeia energética.

Notícias Agrícolas: Ainda existe algum obstáculo técnico para ampliar a participação do biodiesel na matriz brasileira?

Carlos Eduardo Hammerschmidt: Não vejo qualquer impedimento técnico. Hoje já existem caminhões com tecnologia flex aptos a operar com diferentes percentuais de biodiesel, inclusive B100. Recentemente, a própria Volvo Brasil levou essa pauta à ANP.

O Grupo Potencial, em parceria com a Scania, adaptou em 2019 um caminhão originalmente movido a diesel para operar integralmente com biodiesel. As alterações foram mínimas: apenas ajustes no módulo de reconhecimento do combustível e nos sistemas filtrantes. Esse veículo já ultrapassou 200 mil quilômetros rodados.

Portanto, do ponto de vista tecnológico, o setor está plenamente preparado. A elevação de um ou dois pontos percentuais na mistura representa não apenas um avanço energético, mas também uma estratégia relevante para fortalecer a soberania nacional.

Notícias Agrícolas: Mesmo após a aprovação da Lei do Combustível do Futuro, o setor ainda aguarda definições mais concretas. Como o senhor interpreta essa demora?

Carlos Eduardo Hammerschmidt: Sinceramente, também tenho dificuldade em compreender. A Lei do Combustível do Futuro foi concebida justamente para garantir previsibilidade e segurança jurídica ao mercado.

O Grupo Potencial anunciou investimentos de R$ 3 bilhões no mesmo dia em que a legislação foi apresentada e, posteriormente, ampliou esse montante para R$ 6 bilhões, demonstrando confiança no potencial brasileiro.

Todos esses projetos foram estruturados com base em uma legislação debatida durante dois anos e aprovada por unanimidade no Congresso Nacional e no Senado. O que o setor espera é simplesmente o cumprimento das regras estabelecidas. Isso é essencial não apenas para a indústria, mas principalmente para o produtor rural, que depende de estabilidade para planejar seus investimentos.

Notícias Agrícolas: O Grupo Potencial também anunciou investimentos expressivos em Lapa, no Paraná. Por que direcionar tantos recursos aos biocombustíveis neste momento?

Carlos Eduardo Hammerschmidt: Porque o mundo inteiro está avançando nessa direção. Tivemos, nos últimos anos, acontecimentos que aceleraram essa percepção, como a guerra entre Rússia e Ucrânia, os problemas de abastecimento de gás na Europa e os conflitos relacionados ao petróleo.

Esses episódios demonstram a necessidade de os países ampliarem sua independência energética e diversificarem suas matrizes. Atualmente, o Brasil ainda importa cerca de 30% do diesel fóssil consumido internamente.

Nossa empresa surgiu no segmento de combustíveis fósseis e distribuição, mas hoje direciona sua estratégia principal para os biocombustíveis. O futuro da economia global está diretamente associado às metas de descarbonização, tanto no setor aéreo quanto no transporte marítimo.

Notícias Agrícolas: Quais cadeias agrícolas devem sentir os maiores impactos desses investimentos?

Carlos Eduardo Hammerschmidt: Principalmente soja e milho. Nosso projeto de etanol de milho está previsto para iniciar em 2028, e o Paraná ocupa posição estratégica nesse contexto por ser o segundo maior produtor nacional dessas culturas.

Além disso, o estado concentra as maiores cooperativas agroindustriais do país, o que garante ampla disponibilidade de matéria-prima. Também buscamos fortalecer o relacionamento com o produtor rural, até porque somos uma empresa familiar e mantemos uma conexão muito próxima com o campo.


Notícias Agrícolas: Esses empreendimentos podem impulsionar ainda mais a atividade agrícola regional?

Carlos Eduardo Hammerschmidt: Sem dúvida. A instalação de uma biorrefinaria transforma a dinâmica econômica da região. Em muitos casos, produtores que atualmente não cultivam milho podem passar a investir nessa cultura para atender à nova demanda.

Existe ainda a participação obrigatória da agricultura familiar no fornecimento de matéria-prima, o que amplia a distribuição de renda e promove desenvolvimento social.

Quando o Brasil exporta apenas o grão in natura, deixa de capturar parte significativa da riqueza gerada. Já a industrialização permite multiplicar em até seis ou sete vezes a contribuição ao PIB nacional.

Notícias Agrícolas: Quais são hoje os principais projetos em execução dentro do Grupo Potencial?

Carlos Eduardo Hammerschmidt: Estamos inaugurando neste mês nossa nova esmagadora de soja. Na primeira etapa, a capacidade será de 3,5 mil toneladas, com expansão prevista para 7 mil toneladas em uma segunda fase.

Também estamos ampliando a produção de glicerina refinada. Atualmente, somos o segundo maior produtor mundial desse segmento e atingiremos capacidade de 90 mil toneladas anuais.

Além disso, avançamos na expansão da produção de biodiesel, que chegará a 1,6 bilhão de litros por ano. Já o projeto de etanol de milho, entre 2028 e 2030, terá potencial para produzir 1 bilhão de litros anuais.

Esses investimentos devem movimentar intensamente a economia regional, ampliar a geração de empregos e fortalecer a demanda pela produção agrícola.


Notícias Agrícolas: Qual é a importância de fóruns como os realizados durante a Fenagra para o desenvolvimento do setor?

Carlos Eduardo Hammerschmidt: Esses encontros são fundamentais porque aproximam diferentes elos da cadeia produtiva e permitem ampliar o entendimento sobre temas que muitas vezes não chegam ao conhecimento do público em geral.

Quando discutimos biocombustíveis, falamos também de redução de custos logísticos, geração de empregos e fortalecimento econômico. Dependendo da região, o uso desses combustíveis pode reduzir em até 30% o custo do frete.

Além disso, a industrialização da soja e do milho gera uma ampla diversidade de produtos, como farelo, óleo, biodiesel, casca, glicerina e vitamina E. Trata-se de uma cadeia altamente agregadora de valor e extremamente relevante para o desenvolvimento do país.

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Por:
Michelle Jardim
Fonte:
Notícias Agrícolas

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