Inundação na fronteira entre Nepal e Tibete deixa centenas de desaparecidos; 95 corpos são resgatados
Por Gopal Sharma e Liz Lee
TRISHULI, Nepal/PEQUIM, 26 Ago (Reuters) - Uma enorme massa de lama e rocha desabou sobre um rio na fronteira do Himalaia entre o Nepal e o Tibete nesta quarta-feira, provocando inundações catastróficas no lado nepalês que mataram dezenas de pessoas e deixaram centenas de turistas desaparecidos.
Em um desastre que ainda estava em andamento, vídeos comprovados mostraram dezenas de pessoas sendo arrastadas na fronteira, com as autoridades de ambos os lados temendo um número muito maior de vítimas e destruição em grande escala.
Casas, estradas e projetos de energia foram arrastados no Nepal, enquanto autoridades no Tibete afirmaram temer “um grande número de vítimas”, com algumas pessoas desaparecidas no condado de Gyirong após um deslizamento de terra atingir um posto de fronteira terrestre.
“Era uma enorme enxurrada de lama vindo direto em nossa direção. À medida que se aproximava, ela subia cada vez mais. Quando a vi invadir nossa casa, tentei segurar a mão da minha esposa e levá-la para o terraço. Mas ela foi arrastada pela lama”, disse Keshav Prasad Baral, um sobrevivente de 68 anos que estava sendo atendido em um pequeno hospital.
“Quatro ou cinco horas depois, um helicóptero veio me resgatar. Minha esposa ainda está em algum lugar sob a lama. Ela se foi.”
Outro sobrevivente descreveu como foi salvo ao se agarrar a uma mangueira enquanto via a casa onde trabalhava desaparecer.
Relatos iniciais de autoridades do Nepal sugeriram que um terremoto na região poderia ter desencadeado uma avalanche e causado as enchentes.
Cerca de 95 corpos foram recuperados e ainda não tinham sido identificados, informou o gabinete do primeiro-ministro do Nepal, acrescentando que 484 turistas estavam desaparecidos — sendo 391 estrangeiros e 93 nepaleses.
Entre os viajantes estrangeiros desaparecidos estavam mais de 100 indianos, três cidadãos dos EUA e 12 britânicos, segundo o Ministério do Turismo do Nepal. Não estava claro quantos moradores locais também estavam desaparecidos.
A região fica em uma rota popular para Kailash Manasarovar, no Tibete, local visitado anualmente por centenas de peregrinos hindus da Índia e de outros lugares, especialmente nesta época do ano.
A emissora estatal da China informou que três pessoas morreram e outras 265 continuavam desaparecidas em Gyirong, no Tibete — os primeiros números de vítimas divulgados referentes ao lado chinês da fronteira. A emissora acrescentou que o balanço ainda estava sendo verificado e que as operações de resgate estavam em andamento.
A Coreia do Sul informou, separadamente, que oito de seus cidadãos também estavam desaparecidos no Nepal.
Alertas de enchentes foram emitidos nos populosos Estados de Uttar Pradesh e Bihar, no norte da Índia, uma vez que fazem fronteira com o Nepal e vários rios descem das montanhas para suas planícies.
IMAGENS MOSTRAM PESSOAS FUGINDO
Imagens de câmeras de segurança captadas no lado chinês da fronteira entre o Nepal e o Tibete mostraram muitas pessoas fugindo antes que uma parede de rochas, lama e água destruísse prédios, veículos e ceifasse muitas vidas.
O Centro Alemão de Pesquisa em Geociências (GFZ) informou que houve um terremoto de magnitude 4,4 aproximadamente sete minutos antes do horário indicado nas imagens de segurança.
Uma avalanche de gelo e rochas no rio Lhende Khola, no lado nepalês, foi o gatilho, mas a causa ainda não foi confirmada, disse Qianggong Zhang, chefe de riscos climáticos e ambientais do Centro Internacional para o Desenvolvimento Integrado das Montanhas, com sede em Catmandu.
Imagens de televisão mostraram casas destruídas pelas águas da enchente, carros flutuando e uma ponte metálica sendo levada pela correnteza, enquanto testemunhas relataram à Reuters que as águas engoliram vilas inteiras.
“Pode haver um grande número de vítimas ou perdas materiais”, disse o administrador distrital Narendra Pariyar, que instou os moradores das margens do rio Bhote Koshi a se deslocarem para terrenos mais elevados, após relatos de que vilas e locais de obras estavam sendo levados pela correnteza.
“Há devastação por toda parte”, declarou Tula Bahadur BK, profissional de saúde em Rasuwa, à Reuters. “Os assentamentos próximos ao rio foram completamente arrastados. Cinco dos meus próprios parentes estão desaparecidos.”
(Reportagem de Gopal Sharma, Sahana Bajracharya, Aftab Ahmed, Liz Lee, Yukun Zhang, Xiuhao Chen, Shi Bu, Sakshi Dayal, Kanjyik Ghosh e Jatindra Dash)