Normalização no Oriente Médio reduz riscos para fertilizantes, mas não elimina pressões sobre o mercado

Análise da StoneX destaca melhora do ambiente global de negócios, enquanto compradores brasileiros enfrentam desafios logísticos e necessidade de recomposição de estoques
Publicado em 10/07/2026 09:59

O mercado global de fertilizantes deve enfrentar um ambiente mais previsível no terceiro trimestre de 2026 em comparação ao período de forte volatilidade observado após o início do conflito no Oriente Médio. A avaliação faz parte da 36ª edição do Relatório Trimestral de Perspectivas para Commodities da StoneX, que aponta avanços nas negociações entre Estados Unidos e Irã como um fator relevante para a redução das incertezas e para a melhora das condições de abastecimento global. O relatório pode ser baixado gratuitamente aqui.

Segundo o levantamento, a perspectiva de retomada da navegação pelo Estreito de Ormuz e o retorno gradual das exportações chinesas de ureia tendem a aliviar parte das restrições de oferta que pressionaram os preços e dificultaram o planejamento de produtores e compradores ao longo dos últimos meses.

“A evolução das tratativas diplomáticas representa um fator importante para a redução dos riscos no mercado global de fertilizantes. Embora não elimine a possibilidade de novos episódios de instabilidade, esse cenário contribui para melhorar a visibilidade dos agentes do setor e reforça as expectativas de normalização dos fluxos comerciais ao longo do segundo semestre”, afirma Tomás Pernías, analista de Inteligência de Mercado da StoneX.

Normalização reduz riscos, mas mantém incertezas

Apesar do ambiente mais favorável, a StoneX destaca que os impactos da normalização não devem ser uniformes entre os diferentes segmentos do complexo NPK. Enquanto o mercado de nitrogenados já passou por uma forte correção de preços e pode voltar a registrar movimentos de recuperação, os fosfatados continuam enfrentando fatores estruturais que limitam quedas mais expressivas.

Perspectivas para nitrogenados no mercado global

Após atingirem níveis historicamente elevados durante o período mais crítico das tensões no Oriente Médio, os preços da ureia recuaram de forma significativa nos últimos meses. No Brasil, as cotações CFR, que chegaram próximas de US$ 800 por tonelada em abril, acumularam queda próxima de 50% em apenas nove semanas.

Esse movimento restabeleceu parte da atratividade das relações de troca para os produtores, mas, segundo a StoneX, também reduziu o espaço para novas correções relevantes no curto prazo.

“Os preços já absorveram uma parcela importante dos fatores baixistas que pressionavam o mercado. Com valores mais baixos, o foco dos participantes volta a se concentrar nos fundamentos de demanda, especialmente diante da possível retomada das compras pela Índia e da necessidade de recomposição de estoques para a safrinha de milho no Brasil”, explica Pernías.

Nesse contexto, o relatório aponta que os riscos para o mercado de nitrogenados se inverteram, elevando as chances de recuperação das cotações ao longo dos próximos meses.

Mercado de fosfatados segue pressionado por custos e oferta

No segmento de fosfatados, a análise indica um cenário mais complexo. Embora a normalização logística no Oriente Médio deva exercer alguma pressão baixista sobre os preços, permanecem obstáculos importantes para que essa correção ocorra de forma rápida e consistente.

Um dos principais fatores é a oferta restrita de enxofre, matéria-prima essencial para a produção de fertilizantes fosfatados. A escassez global elevou custos industriais e reduziu taxas de utilização das fábricas, limitando a capacidade produtiva em diferentes regiões.

“A melhora no fluxo logístico não significa que o mercado retornará imediatamente às condições observadas antes do conflito. A disponibilidade de enxofre continua sendo um fator determinante para a oferta global de fosfatados, o que pode tornar qualquer ajuste de preços mais gradual e cercado de incertezas”, destaca o analista.

Segundo a StoneX, esse cenário também reduz as chances de uma retomada mais robusta das exportações chinesas de MAP e DAP, contribuindo para manter os preços em patamares historicamente elevados por mais tempo.

Potássicos com menor volatilidade no curto prazo

Entre os principais grupos de fertilizantes, o mercado de potássio aparece como aquele com menor potencial de volatilidade no curto prazo. A StoneX observa que os compradores continuam demonstrando cautela e resistência a preços mais altos, enquanto não existem sinais relevantes de aperto na oferta global.

“Os fundamentos do mercado de potássicos permanecem relativamente equilibrados. Não há, neste momento, uma combinação de demanda forte ou restrições de oferta que justifique movimentos expressivos de alta ou de baixa dos preços”, afirma Pernías.

A expectativa é de relativa estabilidade ao longo do terceiro trimestre, proporcionando condições de aquisição semelhantes às observadas atualmente.

Brasil: desafios logísticos e recomposição de estoques

Embora o cenário internacional tenha melhorado, a StoneX ressalta que o mercado brasileiro entra em um momento decisivo para o abastecimento da próxima safra de verão. O país ainda registra volumes de compras de ureia e MAP abaixo da média histórica, o que pode exigir aceleração das importações nas próximas semanas.

Além disso, fatores como o comportamento das monções na Índia, possíveis oscilações na demanda global e a limitação das janelas logísticas seguem no radar dos participantes do mercado.

“Os preços se tornaram mais atrativos, mas a atenção dos compradores deve se voltar cada vez mais para a execução logística e para o abastecimento físico. As decisões tomadas nas próximas semanas serão determinantes para garantir a disponibilidade de fertilizantes durante a próxima temporada agrícola”, observa Pernías.

Custos financeiros e impacto na rentabilidade do produtor

Outro ponto de atenção destacado pelo relatório é o ambiente de juros elevados tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos. O custo de financiamento continua pressionando as margens dos produtores rurais e deve permanecer como um desafio relevante ao longo do segundo semestre.

“Mesmo com a redução das incertezas geopolíticas e um mercado mais equilibrado, a rentabilidade do produtor continua sendo impactada pelo elevado custo do capital. Por isso, a melhora das condições de mercado não implica uma normalização imediata do ambiente financeiro para o agronegócio”, conclui o analista.

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