MAPA reconhece ausência de cadeia produtiva de jumentos e amplia debate sobre preservação da espécie
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O reconhecimento do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), por meio de documento oficial da Secretaria de Defesa Agropecuária, de que não existe uma cadeia produtiva estruturada de jumentos no Brasil colocou novos elementos no debate sobre o futuro da espécie.
A manifestação ocorre em meio a alertas de pesquisadores e entidades que acompanham a espécie. Levantamento da The Donkey Sanctuary Brasil, elaborado com base em dados da FAO, IBGE e Agrostat, aponta que a população de jumentos no país caiu cerca de 94% entre 1999 e 2024. Segundo o levantamento, o Brasil possuía cerca de 1,37 milhão de jumentos em 1999 e passou para aproximadamente 78 mil animais em 2024/2025.
Grande parte da demanda pelas peles dos jumentos está ligada à produção de ejiao, um produto tradicional da medicina chinesa elaborado a partir da gelatina rica em colágeno extraída da pele desses animais. Para especialistas, entretanto, a atividade desenvolvida no Brasil não reúne os requisitos necessários para ser considerada uma cadeia produtiva organizada e sustentável.
O posicionamento do MAPA reforça avaliações que já vinham sendo apresentadas por pesquisadores e entidades ligadas à proteção animal. Entre os principais pontos levantados estão a ausência de planejamento produtivo, as dificuldades de reposição dos rebanhos, os riscos sanitários e o avanço da redução populacional observada nas últimas décadas.
Especialista vê confirmação de avaliações técnicas
Para a médica veterinária Vânia Nunes, diretora técnica do Fórum Nacional de Proteção e Defesa Animal, o reconhecimento oficial do Ministério representa um marco importante para o enquadramento técnico do tema.
“O reconhecimento do MAPA é um ponto extremamente relevante porque confirma tecnicamente o que já vinha sendo apontado por pesquisadores e entidades de proteção animal: não há uma cadeia produtiva estruturada de jumentos no Brasil”, afirma.
Segundo a especialista, uma cadeia produtiva organizada pressupõe planejamento, rastreabilidade, manejo reprodutivo, controle sanitário e sustentabilidade populacional ao longo do tempo. Na ausência desses fatores, a atividade deixa de ser caracterizada como produção pecuária estruturada.
“Quando não há reposição adequada da população e o uso se baseia na retirada contínua de animais sem controle reprodutivo ou planejamento, caracteriza-se uma atividade extrativista. Ou seja, não há produção contínua, mas a exploração de um recurso biológico finito”, explica.
Biologia da espécie impõe limitações
Além dos aspectos relacionados à organização produtiva, Vânia destaca que a própria biologia dos jumentos representa um obstáculo para a manutenção de um modelo baseado na retirada contínua de animais.
“Os jumentos possuem características reprodutivas muito específicas, que impedem a reposição anual dos animais em escala suficiente para sustentar esse modelo”, afirma.
A especialista explica que as jumentas geram, em média, apenas um filhote por gestação, que dura entre 12 e 14 meses. O transporte para abatedouros também pode provocar estresse e abortos, reduzindo ainda mais a capacidade de reposição populacional.
“Do ponto de vista biológico, a própria espécie impõe limites à ideia de uma cadeia produtiva. Biologicamente, essa cadeia é inviável”, ressalta.
Impacto econômico é considerado reduzido
Além dos questionamentos sobre sustentabilidade, a especialista afirma que estudos desenvolvidos pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP) apontam baixa relevância econômica da atividade.
Segundo Vânia, as pesquisas indicam que o setor ligado à exploração de jumentos representa menos de 0,000003% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. Os levantamentos também não identificaram crescimento econômico significativo ou aumento de arrecadação nos municípios que receberam abatedouros durante o período de operação.
“É importante destacar que não estamos falando de um único estudo, mas de um conjunto de pesquisas desenvolvidas pela Esalq, uma das instituições mais respeitadas do país na formação de lideranças do agronegócio”, afirma.
Na avaliação da veterinária, os resultados reforçam a conclusão de que não há base técnica para sustentar a existência de uma cadeia produtiva estruturada de jumentos no Brasil.
Ciência e inovação surgem como alternativas
A busca por soluções tecnológicas também aparece como um dos caminhos apontados para reduzir a pressão sobre os animais.
Vânia cita como exemplo um projeto desenvolvido pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), sob coordenação da pesquisadora Carla Molento, que produz colágeno de jumento em laboratório por meio de fermentação de precisão.
“A tecnologia produz colágeno de jumento em laboratório, sem necessidade de abate, exportação de peles e sofrimento animal”, destaca.
Para a especialista, iniciativas desse tipo demonstram que inovação tecnológica e conservação podem avançar de forma complementar, reduzindo a dependência da utilização direta dos animais.
Rastreabilidade e saúde pública preocupam especialistas
A ausência de controle sobre a origem dos animais também está entre os principais pontos de atenção apontados pela entrevistada.
“A ausência de rastreabilidade abre margem para riscos sanitários importantes, como disseminação de doenças e impossibilidade de controle sobre a origem dos animais”, afirma.
Segundo ela, a falta de monitoramento adequado pode gerar impactos para a saúde pública e comprometer a confiança de mercados compradores.
“Sem controle adequado, há risco de exposição a zoonoses e a contaminantes ambientais, como metais pesados, o que pode afetar tanto a Saúde Única quanto a confiança de mercados compradores.”
Para Vânia, o sistema atual ainda apresenta lacunas importantes que dificultam o acompanhamento das condições sanitárias e do bem-estar dos animais.
Debate ultrapassa fronteiras brasileiras
A preocupação com a redução da população de jumentos não é exclusiva do Brasil. Segundo a especialista, diversos países vêm adotando medidas para conter o avanço da exploração dos animais.
Na África, em 2024, 55 chefes de Estado aprovaram por unanimidade a proibição da exportação de peles de jumentos para a China por tempo indeterminado. O objetivo da medida foi conter a redução populacional registrada em diferentes regiões do continente.
O caso é citado por pesquisadores e entidades como exemplo de iniciativas voltadas à preservação dos animais diante da crescente demanda internacional por peles.
Patrimônio histórico e cultural do Semiárido
Além das questões econômicas, sanitárias e ambientais, o debate envolve um animal que ajudou a construir a história do desenvolvimento rural brasileiro.
“Estamos falando de duas dimensões complementares. O jumento não é apenas uma espécie animal, mas também parte fundamental da história do desenvolvimento rural brasileiro, especialmente no Semiárido”, afirma Vânia.
Durante décadas, esses animais desempenharam papel essencial no transporte de água, alimentos e insumos em regiões de difícil acesso, tornando-se aliados da agricultura familiar e da subsistência de milhares de famílias rurais.
“Trata-se principalmente de uma perda cultural e patrimonial, por romper com um elemento histórico da vida no campo brasileiro”, destaca.
Conservação passa a ocupar o centro da discussão
Para a especialista, os dados populacionais observados nas últimas décadas demonstram a urgência de ações voltadas à proteção dos animais.
“A redução de cerca de 94% da população entre 1996 e 2024 não é apenas um indicativo: é um alerta extremamente grave sobre o risco de desaparecimento da espécie”, afirma.
Entre as medidas defendidas estão programas de conservação genética, incentivo à reprodução responsável, monitoramento populacional, ampliação das pesquisas científicas e fortalecimento da fiscalização.
Após décadas transportando água, alimentos e insumos em algumas das regiões mais desafiadoras do país, o jumento passou a ocupar o centro de uma discussão que envolve conservação, ciência, saúde pública e patrimônio cultural. Com o reconhecimento do MAPA de que não existe uma cadeia produtiva estruturada para esses animais, especialistas defendem que o próximo passo deva ser transformar o alerta em políticas capazes de garantir sua sobrevivência para as próximas gerações.
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